Explosões de grande intensidade abalaram a capital ucraniana, Kiev, durante a madrugada, deixando um rastro de destruição e elevando o clima de tensão no que parece um novo movimento decisivo no tabuleiro da guerra. As autoridades reportaram pelo menos um morto e cinco feridos, além de danos significativos a infraestruturas energéticas.
No povoado de Putrivka, na região metropolitana da capital, equipes do Serviço de Emergência recuperaram oito pessoas soterradas entre escombros após um ataque. Cinco das vítimas precisaram de hospitalização e uma delas faleceu durante o transporte para atendimento médico. O episódio confirma a persistência de ataques direcionados a áreas residenciais que corroem os alicerces civis da estabilidade.
Em resposta ao risco de novos projéteis, a aeronáutica ucraniana declarou estado de alerta aéreo em todo o território, citando ameaça de mísseis. Trata-se de um aviso que reverbera como um sinal de fragilidade defensiva em pontos críticos da linha de frente e das retaguardas urbanas.
Simultaneamente, o prefeito da cidade portuária do sul, Odessa, Oleg Kiper, informou que o “inimigo” intensificou ataques ao setor energético regional em escala ampla. Segundo Kiper, drones foram lançados contra instalações críticas, provocando incêndios que já foram controlados pelos serviços de socorro. Até o momento, não há registos de mortos ou feridos em Odessa, mas os prejuízos a estruturas públicas seguem em avaliação e reparação.
Os incidentes e a escalada de ataques ocorrem a apenas dois dias do quarto aniversário da invasão russa, um momento simbólico que pode ser interpretado como uma tentativa de pressão psicológica e estratégica por parte de Moscou — um movimento que redesenha, ainda que temporariamente, linhas de influência e de comunicação.
No plano diplomático, emergem sinais contraditórios: o enviado especial dos Estados Unidos no Médio Oriente, Steve Witkoff, declarou em entrevista à Fox News que um novo round de negociações envolvendo delegações da Ucrânia e da Rússia deverá ocorrer dentro de três semanas, com potencial para culminar num encontro de cúpula entre os presidentes Zelensky e Putin. Witkoff não descartou a presença de um formato trilateral incluindo o ex-presidente Donald Trump, ressaltando que Trump só participaria se julgasse possível obter o “melhor resultado”.
Do lado ucraniano, o presidente Zelensky já afirmou que espera um novo ciclo de negociações em Genebra dentro de dez dias. Registra-se que em 18 de fevereiro ocorreram conversações em Genebra, num formato trilateral com representantes da Ucrânia, dos Estados Unidos e da Rússia, um esboço de arquitetura diplomática que tenta, com dificuldade, abrir janelas de diálogo no meio da tectônica de poder em curso.
Como analista, observo que os ataques recentes e as declarações sobre negociações não são eventos isolados, mas movimentos coordenados num tabuleiro estratégico onde cada lance busca ganhos táticos e políticos. A continuidade dos ataques a infraestruturas energéticas e o reestabelecimento de um clima de alerta aéreo mostram uma tentativa de pressionar as capacidades de resistência civil e industrial ucraniana. Paralelamente, a anunciada retomada das negociações indica que atores externos e intermediários continuam a trabalhar por um redesenho de fronteiras invisíveis — seja por via diplomática, seja por desgaste progressivo.
O desenvolvimento nos próximos dias será determinante: se as partes chegarem a novas propostas em Genebra ou noutra mesa, poderemos assistir a um movimento de contenção que prepare as bases para um eventual encontro de alto nível; se a ofensiva permanecer, os custos humanitários e infraestruturais se ampliarão, complicando qualquer solução negociada.
Por Marco Severini, Espresso Italia — análise geopolítica e estratégica.






















