Mike Huckabee, apresentado como embaixador dos Estados Unidos em Israel na entrevista, declarou ao podcaster Tucker Carlson que Israel teria um direito bíblico a uma extensão territorial que, na interpretação literal citada, alcançaria grande parte do Oriente Médio. “Seria bom se se apossassem de tudo”, disse Huckabee em resposta à leitura de um versículo do Antigo Testamento que promete a Abraão uma terra que vai “do wadi do Egito ao grande rio, o Eufrates”.
No diálogo, Carlson sublinhou que essa delimitação, transposta para a geografia contemporânea, incluiria o Levante — Israel, Jordânia, Síria, Líbano — e ampliaria o alcance até partes da Arábia Saudita e do Iraque. Huckabee respondeu com cautela aparente: “Não tenho certeza que se chegaria a tanto, mas seria um grande pedaço de terra”. Em seguida, reafirmou uma visão teológica-política: “Israel é uma terra que Deus deu, através de Abraão, a um povo que foi escolhido”.
A entrevista ocorreu em território israelense, durante uma visita de Carlson que chamou atenção ao relatar um tratamento “bizarro” no aeroporto Ben Gurion — relato contestado por autoridades israelenses e americanas, que qualificaram os procedimentos como interrogatórios de segurança de rotina. Politicamente, a conversa expõe o encontro entre duas correntes do conservadorismo americano: o movimento nacionalista cristão, que lê literalmente passagens do Antigo Testamento, e a ala conservadora tradicional pró-Israel que Huckabee representa.
Do ponto de vista estratégico, a declaração é um movimento no tabuleiro que altera percepções mais do que fronteiras imediatas. Não se trata apenas de uma afirmação teológica: é uma peça na tectônica de poder que redefine narrativas de legitimação territorial — algo que, historicamente, tem efeitos práticos na diplomacia, no apoio material e no alinhamento entre atores estatais e não estatais.
No mesmo contexto de escalada, um alto dirigente do movimento Hezbollah — Mahmoud Qamati, parlamentar e figura política ligada à organização — reagiu ao que qualificou como um novo massacre após um ataque israelense no leste do Líbano que teria matado oito combatentes. Em discurso transmitido pela rede Al Manar, Qamati declarou que a única opção remanescente ao movimento é a “resistência“, elevando o nível retórico e sinalizando que o ciclo de ação e reação na região segue alimentando uma dinâmica de conflito.
Além disso, houve relatos de confrontos locais com colonos que teriam atacado um complexo palestino, resultando em dois jovens hospitalizados por ferimentos de arma de fogo. Esses eventos sublinham como incidentes de menor escala podem acelerar uma escalada mais ampla quando se somam a declarações públicas de legitimidade territorial.
Como analista que observa a arena internacional sob a ótica do tabuleiro, cabe notar que afirmações dessa natureza operam como peças simbólicas com efeitos práticos: redesenham influências, mobilizam bases políticas e complicam esforços de moderação entre parceiros ocidentais e atores regionais. A retórica de um “direito bíblico” não é apenas uma citação teológica; é um movimento estratégico que pode corroer alicerces frágeis da diplomacia e ampliar linhas de fratura já existentes.
Marco Severini — Espresso Italia




















