Hoje, 22 de fevereiro, celebra 80 anos Angelo Sotgiu, a voz que por décadas foi um dos rostos e timbres centrais dos Ricchi e Poveri. Nascido em 1946 em Trinità d’Agultu e Vignola, na Sardenha, Sotgiu começou cedo sua trajetória musical — primeiro em um duo chamado Jet, ao lado de Franco Gatti, que mais tarde viria a ser parte fundamental daquele fenômeno vocal que atravessou gerações.
O encontro decisivo da cena se dá em 1963, quando Sotgiu se envolve com Angela Brambati, então cantora e também benzineira por profissão. Foi a própria Angela Brambati quem, em 1967, trouxe para o grupo a amiga Marina Occhiena, formando a composição que se tornaria sinônimo de refrões inesquecíveis e do espírito pop italiano das décadas seguintes.
O primeiro passo público vem no Cantagiro de 1968 com “L’ultimo amore”, versão em italiano de “Everlasting Love” com letra adaptada por Mogol. Dois anos depois, em 1970, a projeção se consolida com a participação no Festival de Sanremo: a performance de “La prima cosa bella“, em dupla com Nicola Di Bari, garante ao grupo o segundo lugar e inaugura o que seria seu primeiro grande sucesso, presente no álbum homônimo “Ricchi e Poveri“.
Os anos 1970 e 1980 seriam, de fato, a década dourada do trio — após a saída de Marina Occhiena em 1981, em consequência de atritos internos ligados a relações pessoais, o quarteto vira trio e alcança repercussão não só na Itália, mas também na Espanha e demais mercados hispânicos, graças a versões em castelhano de seus hits. Canções como “Che sarà“, “Sarà perché ti amo“, “Come vorrei“, “Mamma Maria” e “Voulez vous danser” tornam-se parte do imaginário coletivo e trilhas sonoras de programas populares, numa espécie de espelho do nosso tempo onde a melodia funciona como memória coletiva.
No percurso pessoal e profissional, os episódios mais duros também marcaram a trajetória: em 2013, um convite como convidados de honra ao Sanremo foi interrompido pela tragédia da morte súbita do filho de Franco Gatti. Em 2016, Gatti decide se afastar definitivamente para se dedicar à família, e Angela Brambati e Angelo Sotgiu continuam o legado do grupo.
Uma reaproximação ocorre graças ao trabalho do gerente Danilo Mancuso: no início de 2020, a formação original — Angela Brambati, Franco Gatti, Marina Occhiena e Angelo Sotgiu — volta a se reunir, participando como convidados do Festival de Sanremo na edição de 5 de fevereiro. A vida, entretanto, guardava mais um capítulo doloroso: Franco Gatti falece em 18 de outubro de 2022, aos 80 anos, em Gênova. Ainda assim, a dupla Angela Brambati e Angelo Sotgiu segue ativa, participando do Festival de Sanremo 2024 com a canção “Ma non tutta la vita”.
Os números atestam o impacto: com mais de 22 milhões de discos vendidos, os Ricchi e Poveri figuram entre os artistas italianos mais bem-sucedidos, sendo o segundo grupo com maior vendas, atrás apenas dos Pooh. Participantes assíduos do Sanremo (13 vezes) e vencedores em 1985 com “Se m’innamoro“, além de terem representado a Itália no Eurovision de 1978, o grupo deixou um catálogo que funciona como um reframe afetivo das décadas por que passou.
Celebrar os 80 anos de Angelo Sotgiu é, portanto, olhar para um artista cuja carreira opera como uma narrativa coletiva: seus timbres e escolhas formam uma trilha que acompanha mudanças sociais, movimentos de memória e os pequenos rituais cotidianos embalados por refrões. Não se trata apenas de aniversário: é um convite a revisitar o roteiro oculto da música popular italiana e a pensar por que certas canções continuam a ressoar como eco cultural entre gerações.




















