Por Marco Severini, Espresso Italia. Fontes: Reuters, agências do próprio grupo.
O ISIS reivindicou a autoria de dois ataques direcionados contra o exército sírio em áreas do nordeste e do leste da Síria, em movimentos que o grupo definiu como uma nova fase de operações contra a liderança do país. A reivindicação foi divulgada por meio da agência de propaganda do grupo, a publicação Dabiq, e reportada pela agência Reuters.
Segundo o comunicado do próprio grupo, um indivíduo descrito como “apóstata do regime sírio” foi alvo em Mayadin, província de Deir ez-Zor, onde teria sido alvejado com arma de fogo. Em paralelo, outros dois membros do aparato militar foram atacados com metralhadoras em Raqqa. As informações são apresentadas na linguagem típica de reivindicações do ISIS, que mescla ações pontuais com a retórica de escalada estratégica.
O Ministério da Defesa da Síria, em comunicado oficial, registra um soldado do exército e um civil mortos hoje por “agressores desconhecidos”. Há, portanto, uma diferença entre as alegações do grupo e a versão oficial, padrão nas operações de propaganda: o ISIS anuncia ataques visando à liderança, enquanto o Governo reporta vítimas e responsabiliza atacantes indeterminados.
O contexto informado no relato das agências aponta para uma intensificação dos golpes do ISIS após a ascensão ao poder, no final de 2024, da coalizão liderada por Ahmed al-Sharaa. Ex-líder da al-Qaeda que rompeu com o grupo em 2016, al-Sharaa conduziu uma federação de facções islamistas que derrubou o presidente Bashar al-Assad em 2024, segundo as mesmas fontes. Essa mudança de comando parece ter provocado uma recalibragem das prioridades dos grupos jihadistas.
Em declaração assinada pelo porta-voz identificado como Abu Hudhayfa al-Ansari, o ISIS afirmou que a Síria teria “passado da ocupação iraniana para a ocupação turco-americana” e descreveu Sharaa como um “cão de guarda” de uma coalizão global, prometendo que o destino do novo líder não seria diferente do de Assad. Trata-se de um enunciado dúbio: político e simbólico, projetado para minar a legitimidade da nova liderança e provocar fissuras entre os apoiadores externos do país.
Como analista, vejo estes episódios como movimentos no grande tabuleiro da região. O ISIS procura operacionalizar uma narrativa que o reposicione como ator central, explorando Mayadin e Raqqa — pontos com valor simbólico e logístico — para sinalizar resiliência e capacidade de ação. É uma manobra que combina tática de guerrilha e estratégia de propaganda: pequenas ações com grande efeito psicológico.
O desenrolar dessa dinâmica terá impacto sobre as já frágeis alianças que sustentam o novo governo sírio, exigindo dos atores externos — Turquia, Estados Unidos, Irã e Rússia — uma leitura afinada dos riscos de escalada. A estabilidade regional depende, mais do que de respostas militares imediatas, da capacidade de refazer alicerces diplomáticos e cortar a narrativa que alimenta a retomada operativa do ISIS.
Em termos práticos, vigilância reforçada em Deir ez-Zor e Raqqa, coordenação de inteligência entre forças locais e estrangeiras, e uma estratégia comunicacional que desmonte a propaganda do grupo serão medidas essenciais para impedir que estes ataques se transformem em padrão sustentado.
Resumo factual: reivindicação do ISIS de dois ataques (Mayadin e Raqqa); declaração do Ministério da Defesa sírio sobre uma fatalidade militar e uma civil; discurso do porta-voz do ISIS atacando a nova liderança de Ahmed al-Sharaa. A tectônica de poder na Síria está em movimento — o tabuleiro foi sacudido.

















