Por Otávio Marchesini — Em uma jornada que já pertence à memória coletiva do esporte italiano, Milano Cortina assume contornos épicos. Na penúltima jornada de competições, os atletas italianos voltaram a subir ao pódio três vezes e elevaram o país a uma marca simbólica: 30 medalhas no total, sendo 10 de ouro, 6 de prata e 14 de bronze.
O dia ficou marcado por um acontecimento histórico no ski cross, modalidade até então sem tradição olímpica entre os italianos: pela primeira vez a Itália conquistou medalhas olímpicas nessa prova — e fez isso em dose dupla. Simone Deromedis levou o ouro, enquanto Federico Tomasoni assegurou a prata, vencendo por fotofinish o suíço Alex Fiva. Deromedis, 25 anos, natural do Trentino, campeão mundial em 2023 e com sete vitórias no circuito principal, dominou a final com autoridade.
“Competir em casa é uma fortuna”, disse Deromedis em entrevista após a prova, lembrando do impulso dado pelo público presente. “Quando as pernas não respondem mais, é preciso ir de cabeça; hoje se alinharam todos os astros.” A frase sintetiza tanto o momento pessoal do atleta quanto o contexto coletivo: um país inteiro empurrando seus representantes, numa mistura de pressão e incentivo que fez diferença.
O episódio de Tomasoni teve contornos íntimos e simbólicos. Nunca antes no pódio da Copa do Mundo, ele entrou na pista com um sol pintado no capacete, homenagem à namorada Matilde Lorenzi, falecida em outubro de 2024. A imagem do sol transformou-se, na imprensa e nas redes, em sinal de resistência e memória — um lembrete de que o esporte frequentemente carrega, sob a superfície competitiva, narrativas pessoais de perda, superação e afeto.
Do ponto de vista mais amplo, a campanha italiana em Milano Cortina confirma uma tendência já perceptível: o crescimento do freestyle e das disciplinas ligadas ao esqui livre. A Itália chegou mais tarde que algumas potências, é verdade, mas agora colhe resultados sólidos e consistentes. O desempenho de Deromedis e Tomasoni é tanto produto de investimento técnico quanto de maturação cultural da modalidade no país.
Há, ainda, outro prisma importante: a relação entre o sucesso esportivo e o cenário nacional. Uma Olimpíada em casa permite leituras que vão além do medalheiro. Estádios e pistas tornam-se palcos de afirmação regional e nacional, e os ídolos emergentes passam a ocupar espaços na memória coletiva — não apenas como vencedores, mas como símbolos de um projeto esportivo e social. As 30 medalhas da Itália em Milano Cortina são, portanto, dados frios que escondem narrativas: gerações formadas, federações em transformação, cidades que se reinventam em torno do evento.
Resta observar os desdobramentos: como esse capital simbólico será convertido em políticas de base, infraestrutura e continuidade técnica? A resposta definirá se esta será apenas uma Olimpíada memorável ou o início de uma era.
Em nome da perspectiva histórica, acompanho com atenção o que esses resultados significam para o futuro do esporte italiano — e para a maneira como a Itália se vê, nas suas regiões e na sua imagem internacional, por meio do espelho afiado do alto rendimento.






















