Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em um dos cenários mais impressionantes de Milano Cortina 2026, os olhos do público em Livigno se voltaram para a vertical dramática do freestyle. Ali, no palco mais propício para manobras que desafiam a gravidade, registrou-se um fato raro e simbólico: marido e mulher no ponto mais alto do pódio olímpico. Os chineses Xindi Wang e Mengtao Xu dominaram, respectivamente, as provas masculina e feminina de aerials e escreveram um capítulo novo na história do esporte.
Mais do que duas medalhas de ouro, trata-se de um evento com carga simbólica e cultural. O triunfo do casal chinês coloca em relevo não apenas a excelência técnica — saltos milimetricamente coreografados, precisão na rotação e aterrissagens controladas — mas também a presença de trajetórias pessoais e coletivas que atravessam décadas de crescimento do freestyle como disciplina olímpica. O público presente celebrou com entusiasmo, reconhecendo que o que se viu em Livigno é tanto espetáculo quanto testemunho de uma trajetória de investimento e profissionalização do esporte na China.
Mengtao Xu já ocupa um lugar de referência: sua carreira olímpica começou em Vancouver 2010, com um sexto lugar; veio o prata em Sochi 2014 e, depois, o ouro em Pequim 2022 — agora coroado novamente em Milano Cortina 2026. Nascida em 1990, Xu soma ao longo da carreira números que atestam sua consistência: sete medalhas mundiais, oito esferas de cristal e 35 vitórias na Copa do Mundo. Esses dados não são meras estatísticas; são indícios de uma atleta que refinou técnica, repertório e resiliência ao longo de anos de competição de elite.
Por sua vez, Xindi Wang, nascido em 1995, chega ao ápice de sua carreira com a medalha de ouro em Milano Cortina. Até então, o ponto mais alto de seu currículo havia sido a medalha de prata no Mundial de 2019 — edição na qual competiu ao lado de Xu — e agora ele converte potencial e sequência de resultados em título olímpico. Para Wang, o ouro representa a transição de promessa para protagonista.
Do ponto de vista sociocultural, a imagem do casal campeão remete a narrativas mais amplas: o esporte como projeto coletivo e íntimo, a articulação entre trajetórias pessoais e políticas de Estado que fomentam modalidades menos tradicionais, e a Olimpíada como lugar de construção de memórias que ultrapassam fronteiras nacionais. Em termos técnicos, o domínio chinês no aerials confirma um processo de consolidação, fruto de sistemas de formação que privilegiam estrutura, continuidade e inovação nas técnicas de salto.
Para o público italiano, para os observadores europeus e para quem acompanha a evolução do freestyle, a vitória de Mengtao Xu e Xindi Wang em Livigno é ao mesmo tempo espetáculo e sinal: a disciplina prossegue sua afirmação olímpica e social, e atletas que vivem o esporte como projeto de vida continuam a transformar saltos individuais em narrativas coletivas. São imagens que permanecem — não apenas no quadro de medalhas, mas na memória das pistas.
Em colaboração com Espresso Italia.





















