Por Chiara Lombardi — Em um gesto que mistura sensibilidade artística e consciência de cena, Morgan anunciou que não subirá ao palco do Ariston durante a serata delle cover do Sanremo 2026, deixando espaço para que Chiello interprete sozinho o clássico de Luigi Tenco, Mi sono innamorato di te. A performance contará com o acompanhamento ao piano de Saverio Cigarini, enquanto Morgan atuará nos bastidores com um papel técnico e de apoio.
O músico, líder dos Bluvertigo, comunicou a decisão em um post no Instagram e detalhou o raciocínio em entrevista à Adnkronos: após os ensaios ficou claro que sua presença em cena poderia se tornar ingombrante e, em vez de amplificar a interpretação de Chiello, correria o risco de ofuscá-la. “O repertório de Tenco é matéria delicada”, explicou. “Quando se convive com essas canções por anos, elas tendem a dominar a cena. Em uma competição, é justo que a interpretação não seja desequilibrada”.
Há aqui mais do que uma simples decisão logística: trata-se de um gesto de respeito à história da canção e à necessidade de permitir que uma voz jovem ocupe seu lugar sem distrações. Morgan aponta que certos repertórios “não são neutros, trazem um peso específico” — e optou por não alterar o equilíbrio da apresentação. Em palavras quase cinematográficas, preferiu ser a luz fora da tela, permitindo que o plano principal mantenha sua integridade.
Esse retorno simbólico aos corredores do Ariston teria um contorno dramático: seria a primeira vez de Morgan no palco do festival desde a famosa altercação com Bugo em 2020. Em vez de encenar um retorno de protagonista, ele escolheu a recusa performativa — uma espécie de corte de cena que dialoga com a ideia de que presença e ausência têm o mesmo poder narrativo.
No post divulgado por Morgan, ele reafirmou amor pelo arranjo escolhido por Chiello e a crença de que Mi sono innamorato di te pede “uma única voz, uma única alma, um só coração”. Assim, sua participação se dará “nos bastidores, com contribuição técnica”, deixando que Chiello brilhe sem interferências. Saverio Cigarini, ao piano, completará a moldura sonora dessa escolha minimalista e reverente.
Como observadora do zeitgeist cultural, não deixo de ver nessa decisão uma pequena lição sobre o palco contemporâneo: o ato de retirar-se pode ser tão político quanto o aplauso. Ao abdicar de protagonismo, Morgan oferece ao público — e sobretudo ao artista em competição — um espaço limpo para a emergência de uma nova voz. É o roteiro oculto da cena musical: às vezes a melhor interpretação vem não de quem ocupa o centro, mas de quem entende o peso da tradição e prefere não deixá-la adulterar a experiência.
Fatos confirmados: Morgan não estará em cena com Chiello na noite de covers; Saverio Cigarini será o pianista acompanhante; a canção escolhida é Mi sono innamorato di te de Luigi Tenco; Morgan atuará nos bastidores com papel técnico e de suporte. A decisão foi anunciada via Instagram e comentada à Adnkronos pelo próprio artista.






















