Por Otávio Marchesini, Espresso Italia.
Uma queda múltipla marcou os quartos de final da prova feminina dos 1.500 metros de short track em Milan‑Cortina 2026, na tarde de 20 de fevereiro. Três corredoras foram ao gelo, entre elas a campeã italiana Arianna Fontana. O episódio expôs, de forma crua, os riscos inerentes a uma disciplina em que lâminas, velocidade e contato convivem em centímetros.
O maior impacto do incidente foi sobre a patinadora polonesa Kamila Sellier, que sofreu um corte no rosto provocado pela lâmina de um par de patins. A lesão provocou sangramento expressivo e exigiu atendimento imediato: os socorristas prestaram os primeiros cuidados à beira do gelo e, em seguida, retiraram a atleta em maca do Forum di Assago. A prova foi suspensa para o atendimento.
Após a interrupção, a corrida foi reiniciada sem a atleta ferida e sem a norte‑americana Kristen Santos‑Griswold, que recebeu desclassificação. Arianna Fontana, embora visivelmente abalada pelo ocorrido, conseguiu retornar à pista, se classificando em primeiro para as semifinais e avançando depois para a final.
Como repórter com olhar histórico, é preciso separar a comoção imediata do contexto mais amplo. O short track é uma modalidade em que a margem de erro é mínima. As lâminas finas, o gelo reduzido do oval e a necessidade constante de ultrapassagem ampliam a possibilidade de colisões que, ocasionalmente, resultam em cortes e contusões. Em competições de alto nível, o que se observa hoje é um aparato médico preparado para intervir em poucos segundos — e a atuação rápida em Assago evitou consequências mais graves.
O episódio também reacende questões sobre proteção e regulação: há espaço para revisar equipamentos, protocolos de retirada de atletas do gelo e critérios disciplinares que regem reinícios de prova e desclassificações? Perguntas como essas pertencem a federações, treinadores e equipe médica, mas também ao público que acompanha o esporte e às cidades que o acolhem, porque estádios e arenas são, afinal, espaços públicos onde se entrelaçam identidade local e espetáculo global.
Para Arianna Fontana, a sequência do dia — do susto ao retorno competitivo — soma mais um capítulo a uma carreira que já é, por si só, património simbólico do esporte italiano. Para Kamila Sellier, resta a recuperação e o acompanhamento médico, com a atenção legítima de equipe e torcedores.
Milano‑Cortina 2026 segue, portanto, marcada por performances, imprevistos e pela lembrança de que, na fronteira estreita entre desempenho e perigo, o desportista e a organização devem sempre priorizar a segurança. A expectativa agora é por atualizações médicas sobre Sellier e por decisões das autoridades da prova que possam, se necessário, reassessorar protocolos para as próximas provas.
Atualizaremos esta matéria assim que houver informações oficiais sobre o estado de saúde de Kamila Sellier e eventuais pronunciamentos da comissão técnica do short track.





















