Por Marco Severini — Em uma década que redesenha, de forma discreta e persistente, o mapa de forças na mobilidade europeia, os dados divulgados hoje pelo Eurostat mostram um movimento tectônico entre 2014 e 2024: redução acentuada do diesel, expansão da gasolina e uma explosão, ainda desigual, dos automóveis elétricos e de combustíveis alternativos.
O relatório, parte da edição 2025 do estudo “Dados-chave sobre o transporte europeu”, analisa os registos de vinte Estados‑membros — que juntos representam 93% das autovetture imatriculate na UE em 2024 — e apresenta números que merecem leitura em perspectiva geopolítica: as matrículas de veículos a diesel (incluindo híbridos diesel) caíram 67% no período 2014–2024, enquanto os veículos movidos a gasolina (também com híbridos incluídos) aumentaram 60%.
Mais expressivo ainda é o avanço das baterias: os automóveis elétricos registados em solo europeu foram 45 vezes superiores em 2024 face a 2014, fazendo a participação do segmento saltar de 0,3% do total para 13,9% — um ganho que altera, silenciosamente, o equilíbrio competitivo entre fabricantes e redes de energia.
Também cresceram as matrículas de veículos com combustíveis alternativos (GPL, gás natural, hidrogénio em células de combustível, bioetanol, biodiesel, veículos bi‑fuel e outros), com um aumento de 13% entre 2014 e 2024. São movimentos que não ocorrem de maneira uniforme: a transição é claramente “a duas velocidades”.
Na ponta mais avançada do tabuleiro, figuram Dinamarca (51,3%), Malta (37,7%), Suécia (34,9%) e Países Baixos (34,6%) como líderes na percentagem de carros elétricos inscritos em 2024. No lado oposto, Croácia, Eslováquia, Polónia, Bulgária e Itália apresentam participação inferior a 5% para o elétrico, com a gasolina dominando entre 60% e mais de 70% das preferências — claros indícios de alicerces institucionais e de mercado frágeis para a mudança.
O ano de 2020 emerge nos gráficos como ponto de inflexão: é quando a queda das novas matrículas a diesel e o crescimento do elétrico se acentuam. Não se trata de coincidência; foi justamente em 2020 que entrou em vigor o Regulamento 2019/631, que impôs limites de emissões de CO2 mais rigorosos para os fabricantes de veículos novos — um movimento normativo que funcionou como um movimento decisivo no tabuleiro industrial.
Como analista, é necessário olhar além dos percentuais. A transição para veículos de menor impacto energético e emissões reduzidas reconfigura cadeias de valor, infraestrutura portuária e logísticas urbanas; revela alianças estratégicas entre Estados, montadoras e operadores de energia. A aceleração dos elétricos nas nações de topo evidencia a combinação de políticas públicas, incentivos e malha de carregamento como peças inevitáveis num jogo de xadrez geoeconômico.
Ao mesmo tempo, a persistência de mercados fortemente ancorados na gasolina sinaliza riscos de fragmentação na União: curvas de adoção distintas podem criar zonas de vantagem competitiva e reservas de dependência energética. A leitura desses dados exige, portanto, uma estratégia de longo prazo que combine metas ambientais, segurança industrial e coesão territorial — o tipo de alicerce diplomático necessário para evitar fissuras na arquitetura de influência europea.
Em síntese: os números do Eurostat não são apenas estatística. São peças num mosaico estratégico onde cada país move suas políticas em função de prioridades internas, capacidades industriais e, sobretudo, da emergência de novas vias de poder sobre a mobilidade e a energia.






















