Por Alessandro Vittorio Romano — A decisão do Governo italiano de avançar com percursos de autonomia diferenciada na área da saúde acendeu um sinal de alerta entre os médicos hospitalares. Em nota oficial, Pierino Di Silverio, secretário nacional do sindicato Anaao Assomed, definiu a medida como “um grave erro” que pode comprometer a unidade do Serviço Nacional de Saúde (Ssn).
Di Silverio lembra que a saúde pública italiana repousa num princípio constitucional: garantir a todos, independentemente do lugar de residência, o direito universal e uniforme à tutela da saúde. A abertura à autonomia regional — impulsionada por Lombardia, Piemonte, Ligúria e Vêneto —, segundo o sindicato, corre o risco de aprofundar as desigualdades territoriais já existentes, fragmentando a rede de cuidados e criando sistemas locais cada vez mais desequilibrados.
“Com a aprovação pelo Consiglio dei Ministri de percorsi di autonomia differenziata ampliada ao âmbito sanitario, escreveu-se mais uma página escura no livro da saúde italiana”, afirmou Di Silverio. A mensagem é firme: a reforma proposta não é apenas técnica, é uma mudança estrutural que afeta a coesão social e a equidade no acesso aos serviços.
O sindicato exige um encontro urgente na Conferência das Regiões, espaço onde Di Silverio espera debater os riscos e buscar alternativas. Além da oposição à pulverização das regras e recursos, Anaao sublinha que a recente reforma da formação dos médicos não basta — são necessários instrumentos concretos e políticas integradas para preservar a qualidade e a uniformidade do sistema.
Como um jardineiro que vê as raízes vulneráveis quando o terreno é dividido, Di Silverio parece nos pedir atenção: as raízes do bem-estar coletivo precisam de solo comum para brotar. A fragmentação administrativa pode ser como ventos regionais que, sem coordenação, levantam poeira e escondem desigualdades.
Do ponto de vista prático, a adoção de modelos distintos por região pode levar a diferentes níveis de financiamento, ofertas de serviços e padrões de formação. Isso significa que o lugar onde um cidadão nasce ou trabalha poderia, no futuro, determinar a qualidade dos cuidados disponíveis — um cenário que contraria o espírito do Ssn e o ideal constitucional de igualdade.
Para quem acompanha a saúde pública com o coração atento ao cotidiano — e não apenas aos números —, a proposta de autonomia diferenciada é uma mudança que exige debate amplo, transparente e sensível às consequências sociais. Anaao pede, portanto, diálogo imediato, medidas mitigadoras e garantias de que direitos e padrões permaneçam universais.
Enquanto as estações mudam e as cidades respiram em ritmos próprios, a saúde coletiva precisa de um compasso que mantenha todos no mesmo tempo. Sem isso, o risco é que cada região siga sua própria melodia, e a sinfonia nacional da assistência se desconstrua.






















