Por Alessandro Vittorio Romano – Em um país onde a demografia respira mais devagar e mais profundamente, os números traduzem uma paisagem de necessidades que floresce com o tempo: cerca de 24 milhões de pessoas vivem com doenças crônicas na Itália e aproximadamente 4 milhões são não-autossuficientes. Esses dados, que parecem a colheita inevitável de um outono demográfico, apontam para uma demanda de saúde em expansão, impulsionada pelo envelhecimento da população.
Hoje os maiores de 65 anos já representam quase 25% da população — em torno de 14 milhões de pessoas — e as projeções indicam que, até 2050, esse número poderá atingir os 35%. É um deslocamento lento, como o preparo do solo para novas espécies, que muda a composição das necessidades de cuidado e faz crescer o chamado “tempo interno do corpo”.
O relatório “Quando i soldi non bastano – Il razionamento sanitario in Italia: la situazione degli ultimi sei anni”, elaborado por NeXt Economia e a Università di Roma Tor Vergata, em colaboração com Acli e Caf Acli, lança luz sobre essas mudanças e os seus reflexos no acesso aos serviços. O documento será apresentado em Roma, na Câmara, no dia 23 de fevereiro. Nele, os autores determinam que a resposta pública atual não acompanha essa explosão de demanda, alimentando um fenómeno que definem como razionamento sanitario implicito — isto é, formas veladas de limitação do acesso quando os recursos não são suficientes.
Nesse cenário, ganha força a ideia da sanità di territorio — uma saúde que respira próxima das pessoas: redes locais, serviços de proximidade e integração entre atores públicos, privados e do Terceiro Setor. É aqui que as mutuas socio-sanitárias aparecem como uma proposta concreta para acompanhar os cidadãos no acesso às prestações sanitárias, oferecendo pontes e complementaridade ao Serviço Sanitário público.
Como observador da vida italiana, gosto de pensar nessa articulação como a respiração da cidade: quando as instituições públicas cederem espaço por limitação de recursos, surgem atalhos comunitários, movimentos de solidariedade e estruturas intermédias que sustentam o dia a dia. As mutuas não substituem o Serviço Sanitário, mas podem ser uma folha que protege a raiz do bem-estar, cobrindo lacunas e agilizando percursos de cuidado.
O relatório enfatiza que investir na sanità di territorio e em modelos integrados é crucial não apenas para gerir a atual pressão sobre os serviços, mas para construir uma paisagem de saúde mais resiliente frente às transformações demográficas. É uma colheita de políticas que pede senso de longo prazo, planejamento e cooperação entre esferas.
Ao leitor que procura viver a Itália com atenção sensível ao cotidiano, recomendo acompanhar a apresentação do relatório e refletir sobre como, nas nossas comunidades, pequenas ações — centros de proximidade, redes de voluntariado, mutuas — podem atuar como raízes do bem-estar. Em tempos de mudança, estes laços locais funcionam como âncoras que mantêm a respiração do sistema de saúde mais estável.






















