Por Otávio Marchesini, Espresso Italia. Penúltimo dia de competições em Milano Cortina 2026 e o programa confirma a natureza plural dos Jogos: disputas técnicas e físicas, retornos esperados e despedidas que não se consumam como planejado. A jornada mistura esperança e imprevisto, e cabe ao observador situar cada resultado dentro de uma narrativa maior — esportiva, social e cultural.
No freestyle, o foco inicial está no ski cross. O campeão mundial Simone Deromedis teve uma atuação que o deixou a 1,42s do líder, o canadense Reece Howden, e corre o risco de perder uma posição de cabeça de chave — o que complica um pouco o quadro competitivo. Ainda hoje passam por pista nomes como Dominik Zuech; e pettorais mais altos estarão com Federico Tomasoni e Edoardo Zorzi. A confirmação é de que todos os nomes citados se qualificaram para as oitavas, com a fase eliminatória marcada para o meio-dia. O formato do ski cross, abrupto e imprevisível, tende a premiar quem une técnica com frieza tática em momentos curtos de decisão.
No gelo, a Velocidade e as pistas largas voltam a colocar em evidência a busca por continuidade: Lollobrigida persegue o terceiro ouro no patinagem, tentativa que traduz a pressão histórica sobre atletas que se transformam em símbolos nacionais. Arianna Fontana, com mais de duas décadas no alto nível, não conseguiu o pódio nos 1.500 m — uma ausência que pesa mais por ser a chance de uma 15ª medalha olímpica — mas sua carreira segue como um capítulo sobre longevidade esportiva.
O dia também trouxe o retorno do bob a 4 e do dois mulheres. A manche até aqui foi dominada pelos alemães, mas o conjunto liderado por Patrick Baumgartner — com Lorenzo Bilotti, Eric Fantazzini e Robert Gino Mircea — ocupou de forma provisória a quinta posição, a 16 centésimos do terceiro lugar dos britânicos de Brad Hall. A aproximação por centésimos ilustra como o bob é, ao mesmo tempo, prova de equipamento, técnica e sincronia humana: margens mínimas decidem destinos amplos.
No freeski halfpipe, boas notícias em meio ao susto: o neozelandês Finley Melville Ives, que sofreu uma queda severa nas qualificações, teve confirmada fratura da clavícula pela mãe e permanece consciente e estável, ainda submetido a exames. Na final, o americano Alex Ferreira conquistou o ouro com 93,75 pontos, seguido pelo estoniano Henry Sildaru (93,00) e pelo canadense Brendan Mackay (91,00). A chinesa de origem americana Eileen Gu tenta assegurar ainda hoje uma terceira medalha neste ciclo — reflexo de uma carreira que articula identidades e mercados dentro de uma lógica olímpica transnacional.
Entre as ausências sentidas, a mais simbólica é a de Federico Pellegrino, que não disputará a 50 km em Lago di Tesero por causa de um quadro gripal. Aos 36 anos, completados justamente durante estes Jogos, o veterano valdostano abandonou a sua última prova planejada — ele já havia somado dois bronzes nas provas por equipe. A não participação não é apenas uma questão física: é um lembrete sobre os limites do corpo no cumprimento de ritos esportivos que, por vezes, podem se tornar cerimônias de fechamento de ciclos.
Retornam também ao programa modalidades e atletas que conversam com a tradição alpina: o esqui-alpino reaparece, e no biathlon temos o retorno de nomes como Vittozzi e Wierer, que carregam expectativas de recuperação e resultado para suas equipes e regiões de origem. Esses retornos, entre gerações, alimentam o discurso de renovação que permeia qualquer edição olímpica.
O penúltimo dia de Milano Cortina 2026 é, portanto, uma costura de finais e começos: há medalhas em disputa, partidas que não acontecem, atletas que se reinventam. Mais do que contagens de pódios, o que permanece é a imagem de esportes como espelhos sociais — arenas onde se medem tradições, investimentos, formação e memória coletiva. Amanhã, na cerimônia de encerramento de uma modalidade e abertura simbólica de outra, veremos como essa costura narrativa se cerrará pelo menos por mais quatro anos.





















