Por Chiara Lombardi, Espresso Italia — No cenário curvado do último Sanremo, onde dramaturgia e música se encontram como num roteiro perpetuamente em revisão, Dargen D’Amico reaparece em competição pela terceira vez com a canção AI AI — que, no ouvido, se canta como “Ahi ahi”. A faixa antecipa o novo álbum Doppia Mozzarella, previsto para sair em 27 de março, e funciona como espelho do nosso tempo: vidas sobrecarregadas por estímulos que exigem sempre mais do que precisamos.
O artista conta que não esperava ser reconvocado para o Festival. Depois do apelo por um cessar-fogo em Gaza, lançado do palco do Ariston dois anos atrás, notou uma mudança clara de atitude dentro da Rai. “Não me procuraram mais”, afirma, recordando a sensação de ter sido colocado à margem por posições que expuseram uma compaixão seletiva — um roteiro de complicidades que se revelou político, militar e econômico.
As consequências públicas foram visíveis: ele recebeu ataques e insultos como nunca antes — “mai tanti insulti come a Sanremo” — e foi até interrompido por Mara Venier em Domenica In quando abordava o tema da acolhida aos migrantes. Ainda assim, Dargen mantém um tom de reparo institucional. Diz não nutrir preconceitos quanto a voltar ao programa e sublinha o respeito pela Rai como instituição cultural que merece ser recuperada, mesmo quando a crise interna parece um take em câmera lenta de profissionais que deixam o set.
No centro do seu novo single está a tensão entre tecnologia e condição humana: inteligência artificial e redes sociais aparecem como alvos de ironia e inquietação. Para ele, a IA não é só uma questão técnica; é um desconsolo existencial que redefine perguntas fundamentais sobre autoralidade e empatia. Musicalmente, Dargen critica a homogeneização do mercado italiano: muitas canções parecem saídas de um mesmo roteiro, uma edição repetida que empobrece as possibilidades estilísticas.
A postura ético-política do cantor permanece firme. Ele confessa dificuldade em aceitar a renúncia coletiva a proteger os mais frágeis — a narrativa que privilegia “o mais forte” como sinônimo de razão. Mesmo comentando figuras internacionais como Trump, evita leituras reducionistas: o problema maior é a uniformidade dos comportamentos e a falta de contrapesos eficazes, além das pequenas e grandes cumplicidades cotidianas. Nesse panorama, cita uma cultura política onde a corrupção aparece normalizada, referindo-se a termos como as “modestissime mazzette” mencionadas por autoridades.
Doppia Mozzarella surge, então, como metáfora cultural: duas camadas de um alimento tão familiar quanto contrapostas, assim como nossas rotinas — recheadas de desejo, consumo e excesso. Os smartphones, os feed infinitos, as notificações: todos bombardeiam a atenção contemporânea, criando uma estética do urgir que Dargen pretende desnudar com sarcasmo e cuidado.
Ao final, a presença de Dargen em Sanremo funciona como um reframe — um pequeno gesto narrativo que nos lembra que o entretenimento nunca é descolado do contexto social. Se a música é roteiro, ele insiste em escrever cenas que questionam, em vez de apenas entreter.






















