Por Chiara Lombardi — O cinema, quando é bom, funciona como um espelho do nosso tempo: reflete ansiedades, memórias e o roteiro oculto da sociedade. É assim que, mesmo passadas seis décadas, Detective’s Story/Harper continua a nos mirar com uma lucidez amarga. Lançado nos Estados Unidos em 22 de fevereiro de 1966 (chegando aqui pouco menos de dois meses depois), o filme dirigido por Jack Smight não é apenas um policial: é um noir californiano que lê a tradição hard-boiled através de uma consciência já pós-clássica, deslocando o centro da narrativa do enigma para o desalento.
Baseado no romance de 1949 The Moving Target de Ross Macdonald e adaptado com precisão pelo brilhante William Goldman, o filme acompanha o detetive privato losangelino Lew Harper — interpretado por Paul Newman — um homem de profissão endurecida e coração à deriva. Harper, cujo casamento com Susan (interpretada por Janet Leigh) está prestes a naufragar, é convocado pelo amigo advogado Albert Graves (Arthur Hill) para investigar o desaparecimento do magnata Sampson, a pedido da sua esposa incapacitada, Elaine (a elegante Lauren Bacall).
A investigação conduz Harper por corredores de desejo e decadência: do piloto Allan Taggert (Robert Wagner) à sedutora filha Miranda (Pamela Tiffin), do passado de estrela prometida Fay Estabrook (Shelley Winters) agora afogada no álcool, ao marido rude que a protege (Robert Webber). Encontros com a cantora de nightclub Betty Fraley (Julie Harris) e com o pseudo-santone Claude (Strother Martin) — cuja propriedade nas montanhas esconde um esquema de tráfico de imigrantes — desenham um mapa moral de uma cidade que já não acredita em si mesma.
O roteiro costura uma investigação clássica — inclusa a pista de um pedido de conversão em dinheiro de 500.000 dólares em títulos — com peças de um quebra-cabeça ético: o resgate que dá errado, uma entrega noturna que termina com um homem morto e as notas desaparecendo numa conversível branca. Harper passa a ser menos um desvenda-mistérios e mais um observador de um tecido social em frangalhos.
O trabalho de Jack Smight e a interpretação de Paul Newman transformam o filme num estudo de personagem: Harper não é um herói mitológico, mas um homem cansado que ainda busca um traço de decência num mundo que se tornou escorregadio. O filme, sob a aparência de um thriller de investigação, revela o colapso das instituições públicas e privadas e a erosão da inocência moral — temas que o tornam surpreendentemente contemporâneo e, por vezes, dolorosamente atual.
Esteticamente, o longa mantém elementos do cinema noir — iluminação contrastada, sussurros em bares e corredores urbanos — mas introduz uma sensibilidade moderna: a narrativa privilegia o desencanto sobre o enigma, a personagem sobre a pista. A crônica humana que surge é menos preocupada em restabelecer a ordem do que em mostrar como a ordem já foi perdida.
Refletir sobre Detective’s Story/Harper hoje é reagrupar imagens de uma América que anunciava, nos anos 60, sua crise de autoridade e identidade. É como revisitar um filme que nos oferece, em negativo, o contorno de um país que se tornaria cada vez mais cínico e desconfiado. O policial de Paul Newman, longe de ser consolador, permanece como uma peça de arte que insiste em perguntar por que confiamos em certos mitos institucionais — e o que acontece quando eles se despedaçam.
Se o cinema é um eco cultural, Harper é um eco que não cessa: ressoa o fim de uma inocência moral e documenta, com um olhar preciso e elegíaco, o roteiro oculto de uma transformação social. Ver ou rever este filme é, portanto, mais do que entretenimento; é um exercício de memória e de interpretação do presente.






















