Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Reeditamos a entrevista de Sandra Cesarale com Francesco Renga, publicada originalmente em 13 de abril de 2025. Em uma conversa que mistura memórias pessoais e reflexões culturais, Renga abre o roteiro íntimo de sua vida: os primeiros encontros com Ambra Angiolini, a vitória que mudou sua carreira em Sanremo, o luto precoce pela mãe e o papel transformador da paternidade — encarnado na presença firme da filha Jolanda.
O cantor, hoje com 56 anos, recorda com humor e surpresa o episódio em que Vasco Rossi cruzou seu caminho e lhe disse, entre brincadeira e afeto: “Tu sei troppo bello”. Renga ri ao recontar: não se via como sex symbol; atribuía mais sua empatia e conversa fácil ao efeito que causava nas pessoas. E, claro, aos seus cachos ainda escuros — um traço que ele desconstrói com leveza, atribuindo ao “mistério genético”.
Da sua estética pessoal Renga passa à prática: uma espécie de pequeno tratado capilar. Aos que questionam a manutenção das longas madeixas, ele entrega um conselho quase performático: lavar no máximo duas vezes por semana, investir em produtos de qualidade e apenas umedecer ao amanhecer para reavivar os fios. Um conselho que é também um gesto de resistência ao ritmo da imagem, um reframe do cuidado como ritual e não como obrigação.
Voltando ao passado de cantor e menino dos Timoria, Renga lembra os anos de metal e das longas cabeleiras como uma norma estética do tempo. A vitória em Sanremo com “Angelo”, em 2005, surge como ponto de virada: não estava programado para participar, e muito menos para ganhar. O momento, conta ele, ficou marcado por uma sensação de responsabilidade — a filha recém-nascida, o impacto dos acontecimentos globais como o tsunami e a presença de Ambra no palco. “Foram planetas que se alinharam”, diz, num trecho que parece um off da cena em que a vida e a arte se encontram.
A perda precoce da mãe, também chamada Jolanda, aos 19 anos, é nomeada por Renga como uma chave hermenêutica para sua relação com as mulheres e para a escrita de suas canções. A ausência foi interpretada, por muito tempo, como abandono — uma ferida que modelou afetos, escolhas e temas criativos. Essa cicatriz pessoal confere às suas lembranças de amor e carreira um tom quase operístico: íntimo, dramático e transformador.
Sobre Ambra Angiolini, Renga confessa surpresa e fascinação: “Não sabia quem ela era quando fomos apresentados; pensei ‘e quem é?’. Mas depois vi uma menina brilhante — beleza e inteligência numa combinação devastadora”. A primeira ida à casa dos pais de Ambra, em Cerveteri, permanece vívida: a imagem do pai que abre a porta sem camisa e com um crucifixo no pescoço é uma cena que mistura o colo familiar com o estranho, o trivial com o cinematográfico.
Hoje, a cena doméstica se organiza ao redor das opiniões firmes da filha: Jolanda não hesita em corrigir o pai. Renga conta que ela se irrita quando ele não segue suas dicas — um detalhe que ilumina a dinâmica contemporânea entre figuras públicas e seus papéis privados. É como se o roteiro familiar reescrevesse, em tempo real, a narrativa pública do artista.
Entre duetos recentes (como o encontro com o Modà no dia 14 de fevereiro do ano anterior) e memórias que são quase storyboards emocionais, Francesco Renga se apresenta não apenas como cantor, mas como um espelho das transformações culturais: o artista cujo palco é também sala de estar, onde paternidade, perda e desejo se cruzam no mesmo take.
Em suma, a entrevista de Renga é um convite a olhar além dos hits: é um estudo sobre como as relações privadas moldam o imaginário público — o eco cultural que toda celebridade carrega e que, no seu caso, ressoa entre cabelos, canções e conselhos de filha.






















