Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Em mais uma leitura do roteiro emocional que atravessa a cena musical italiana, Francesco Renga volta a Sanremo pela 11ª vez com a canção Il meglio di me. A volta ao palco, que o coloca ao lado de veteranos como Patty Pravo em número de participações, não é só um retorno técnico: é uma espécie de mise en scène íntima, onde passado e presente se encontram para explicar o comportamento afetivo do artista.
Renga descreve esse momento como uma espécie de epifania: recém-chegado a uma nova gravadora, compõe uma canção que propõe uma ideia simples e ambiciosa — encarar o lado sombrio de si mesmo em vez de escondê‑lo. Segundo ele, vivemos num tempo que nos força a maquiar as falhas para evitar o colapso social. Mas o que a sua letra defende é o contrário: a transformação começa quando você olha o pior de si com coragem e responsabilidade emocional, em vez de atribuir ao outro a tarefa de carregar o escuro.
Essa proposta ganha peso quando Renga confessa as razões íntimas por trás das suas fugas. A perda da mãe aos 17 anos foi, para ele, um divisor de águas. A morte da mãe deixou um vazio que reconfigurou seus laços afetivos, fazendo com que o sentimento de abandono reverberasse nas relações com as mulheres da sua vida. Foi essa ferida — mais do que qualquer rebeldia artística — que o levou a se afastar.
O afastamento da relação com Ambra Angiolini é citado sem subterfúgios: “Nos fizemos mal”, admite Renga, lembrando que o caminho não foi simples, mas que hoje existe uma resolução. É significativo que ele aponte no confronto com as mulheres centrais — sobretudo sua filha e a mãe dela — uma ferramenta de cura. Aqui o palco vira espelho: o artista aprende, com a intimidade recuperada, a não mais fugir diante da fragilidade.
Outra fuga, desta vez profissional e simbólica, foi deixar os Timoria, a banda onde estreou e com a qual participou do Festival em 1991. Após a perda materna, Renga descreve uma desagregação familiar — irmã gêmea casou, o irmão construiu sua vida, o pai mudou-se para a Sardenha — e a banda serviu como um refúgio. Saír do grupo foi, nas suas palavras, uma “grande fuga”: era também o momento de questionar o que havia de autodestrutivo naquele modo de se proteger.
Historicamente, a passagem de bandas de rock por Sanremo já foi vista como heresia por cenas alternativas; ainda assim, Renga e os Timoria provaram que era possível atravessar fronteiras estilísticas sem renegar identidade. Essa tensão entre purismo e abertura cultural é parte do roteiro mais amplo do festival, que transformou-se num espelho das mudanças da indústria e dos hábitos estéticos da Itália contemporânea.
Hoje, com Il meglio di me, Renga parece oferecer um refrão de conciliação: não se trata de negar o passado, mas de aprender a atravessá‑lo. Conforme confessa, às vezes ainda sente a tentação de fugir. Mas há um ponto de virada — uma nova consciência marcada pelo confronto e pela responsabilidade afetiva. Se o palco de Sanremo é o grande cenário público, a canção é o gesto íntimo que transforma o “fugir” em travessia.
Mais do que a crônica da carreira de um cantor, esta é a leitura de um processo humano: o de um artista que entende que a melhor performance pode ser, no fim, a honestidade com o próprio espelho. Em tempos de narrativa filtrada, Renga escolhe desmontar a máscara para reencontrar o seu “melhor”.






















