Por Chiara Lombardi — A nova minissérie de Marco Bellocchio para HBO Max chega como um espelho do nosso tempo: seis episódios que remontam a Itália dos anos 1980 — e, com sutis reflexos, a Itália de hoje. Em Portobello, o cineasta assina uma releitura que é ao mesmo tempo espetáculo e julgamento moral, desencadeada por um dos episódios mais traumáticos da República italiana: o processo e a detenção de Enzo Tortora.
Para quem viveu aquela época — quem via, hipnotizado, os concorrentes bizarros do programa, ou a figura de Paola Borboni com seu chapéu de mágico que fazia o papagaio “falar” — a série remexe uma máquina enferrujada de memórias, hipocrisias e culpas. Para os mais jovens, a tela oferece uma reconstituição espetacular e, ao mesmo tempo, dolorosa, de como o espetáculo televisivo e o espetáculo judicial podem convergir em destruição humana.
O elenco conta com pelo menos três atuações fora de série: Fabrizio Gifuni, cuja cadência vocal e presença evocam de modo assombroso Enzo Tortora; Lino Musella, brilhante na composição de Giovanni Pandico; e Alesi, que completa o trio de destaque. A semelhança física e vocal de Gifuni com Tortora funciona como um dispositivo narrativo: é o eco cultural que transforma a encenação em uma espécie de processo kafkaiano, filmado com a acuidade moral de Bellocchio.
A primeira das seis partes começa por Pandico, o camorrista dissociado cujo ressentimento funciona como motor dramático. A montagem paralela é particularmente eficaz: imagens das últimas edições do programa Portobello — com seu lado tragícamente cômico de uma Itália ainda “strapaesana” — alternam-se com o fora de cena das casas, onde famílias inteiras assistem e, às vezes, entrelaçam as mãos. É aí que a televisão deixa de ser apenas janela e vira espelho distorcido de uma sociedade que julga e é julgada.
Bellocchio não evita o contexto: o terremoto da Irpinia aparece como pano de fundo social, e serve para acentuar a sensação de deslocamento e perda. A sequência em que Pandico, preso, acusa Tortora enquanto assiste ao seu rosto na televisão da cela — “Tu ti nutri delle nostre disgrazie…” — é o nódulo narrativo onde se revela o roteiro oculto da raiva social. Quando o papagaio finalmente “fala” no palco, é um gesto pequeno e cruel que desata uma cadeia de consequências.
Mais do que a reconstrução cronológica, a série de Bellocchio é um exame de linguagem: de como a televisão, a justiça e a imprensa compõem um cenário de transformação que pode esmagar reputações. A direção usa recursos oníricos e hiper-realistas para transformar o documentário em fábula tragicômica — e, ao fazê-lo, nos força a perguntar por que certos traumas nacionais permanecem abertos.
Portobello é, portanto, um convite a revisitar uma ferida histórica com a frieza crítica de quem entende que o entretenimento nunca é apenas entretenimento. É o roteiro oculto da sociedade que se projeta na tela e volta para nos confrontar, ainda que tardio, com a responsabilidade coletiva de não repetir os mesmos erros.
Estreando em 20 de fevereiro na HBO Max, a minissérie promete ocupar o debate público: pelo rigor estético, pelas interpretações e pela coragem de filmar uma ferida que nunca cicatrizou por completo.






















