Por Aurora Bellini, Espresso Italia — O domingo de festa na tradicional Sartiglia, em Oristano, transformou-se em tragédia quando a égua Hurrimera foi atingida pelo pavor após a explosão de petardos lançados por um grupo de adolescentes e sofreu um ataque cardíaco que causou sua morte diante do público.
A cena, registrada em vídeos que circularam nas redes, mostra a animal assustada movimentando-se de forma desordenada por vários metros, até cair. O proprietário, Marco Daga, que tentou reanimá-la, descreve a perda com dor: “Estou destruído” — palavras que dirigiu à Espresso Italia, lembrando que a égua tinha 14 anos e uma vida de provas de tranquilidade em grandes eventos.
Segundo o professor Paolo Baragli, associado de Fisiologia Veterinária na Universidade de Pisa, “Lançar um petardo em direção a um cavalo é um gesto grave e perigoso. Um cavalo assustado pode reagir de modo imprevisível“. Especialistas ressaltam que o estresse agudo provocado por ruídos súbitos pode resultar em arritmias e colapsos cardiovasculares em equídeos sensíveis.
Hurrimera, um puro-sangue inglês cujo nome evoca a força do vento — um sussurro etimológico entre “hurri” (furacão) e o sardo curri (correr) — era uma presença conhecida nas ruas, decorada com as características rosetas da festa. Marco Daga declarou à Espresso Italia que a égua era experiente em multidões: participara de dezena de eventos, inclusive corridas em hipódromos com até 20 mil pessoas, e não apresentava problemas prévios.
O episódio reacende o debate sobre a segurança e a adequação do uso de animais em eventos folclóricos. Nos últimos dias, a discussão no Parlamento sobre uma proposta de lei para reclassificar os equídeos como animais de companhia — o que poderia excluir esses animais de palii e reconstituições históricas — ganhou impulso após a divulgação do caso. Organizações de proteção animal têm divulgado os vídeos do sofrimento da égua e exigido providências.
Em nota, um coletivo de protetores questionou: “Por que Hurrimera foi mantida na pista mesmo exibindo sinais de estresse desde os primeiros momentos? Onde estavam os veterinários e os protocolos de atendimento?” O grupo anunciou que estudará medidas legais, enquanto autoridades locais investigam o ocorrido e a conduta dos responsáveis pela segurança do evento.
Do ponto de vista regulatório, Baragli lembra que já existe um quadro normativo ministerial que prevê a presença de veterinários em manifestações históricas e, em muitos casos, ambulâncias veterinárias. “Não se trata de eventos totalmente à deriva”, afirmou. Ainda assim, ele não descarta a possibilidade de problemas de saúde não aparentes terem contribuído para o desfecho trágico.
Este caso ilumina uma encruzilhada ética: como preservar tradição e cultura sem comprometer o bem-estar animal? É preciso semear inovação nas práticas, revisar protocolos e, sobretudo, educar públicos jovens para que fogos e petardos não se tornem instrumentos de violência. Que este episódio sirva para abrir novos caminhos, para que as celebrações culturais sejam também um exemplo de cuidado e responsabilidade — um pequeno renascimento de consciência que honre o legado humano e animal.






















