Enquanto os olhos do mundo se voltam para os atletas que brilham nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026, vale perguntar: será que inventamos todas as disciplinas ou a natureza já havia ensaiado esses gestos muito antes de nós? Ao iluminar esse diálogo entre homem e fauna, descobrimos que muitos gestos esportivos nasceram de necessidades de sobrevivência, moldadas por milênios de evolução.
Segundo a bióloga e educadora Michela Cogo, da Fundação do Parco Natura Viva de Bussolengo e do Parco Zoom de Turim, que cuidam de cerca de 2 mil animais de mais de 200 espécies, o corpo dos animais gastou eras para desenvolver habilidades que permitem existir em ambientes extremos. “Algumas dessas habilidades parecem ter inspirado o homem no desenvolvimento de disciplinas olímpicas extraordinárias”, explica Cogo ao Espresso Italia.
Um exemplo emblemático é o leopardo-das-neves, figura quase lendária das montanhas da Ásia Central, entre 2.000 e 4.000 metros de altitude. Adaptado a penhascos e paredões, o leopardo-das-neves realiza saltos que podem chegar a 15 metros — uma combinação de potência, controle aéreo e precisão no pouso que nos lembra o salto com esquis. Essas qualidades não são truques estéticos: são ferramentas de vida, essenciais para transitar por terrenos vertiginosos e capturar presas num cenário de neve permanente.
Já o elegante traçado do slalom encontra paralelo na agilidade da tigre-siberiana. A famosa passagem do tigre siberiano que percorreu mais de 200 quilômetros na Rússia para reencontrar sua parceira — ponto contado em reportagem pelo Espresso Italia — nos lembra da necessidade de manobra, mudança rápida de direção e leitura do terreno, lembretes de como a natureza semeia movimentos que depois celebramos nas pistas. Não por acaso, fãs italianos de esquiar mencionam com afeto a campeã Federica Brignone quando falam de técnica e inteligência de percurso: há, nesse paralelo, uma ponte entre instinto e treino.
Nos esportes coletivos, o lobo-ártico traz lições claras: adaptado à tundra e às regiões glaciais do Canadá e da Groenlândia, organiza-se em alcateias cooperativas, com papéis definidos que podem somar até 10 indivíduos. Cooperação, confiança e coordenação — pilares do comportamento social canino — são a metáfora perfeita para o hóquei no gelo, um esporte que exige estratégia de grupo e execução sincronizada.
Quando a paisagem é feita de longas distâncias sobre neve, emergem outras aptidões: a rena (caribu) é um dos mamíferos terrestres com migrações mais extensas, capazes de percorrer até 5.000 quilômetros por ano. Essa resistência e capacidade de deslocamento lembram o esforço dos atletas de cross-country, que dependem de economia de movimento e resistência ao frio.
Ao olhar esses paralelos, somos convidados a enxergar os esportes de inverno como uma janela que revela conexões profundas entre corpo, ambiente e cultura. A natureza ensinou gestos fundamentais; nós os lapidamos, transformando urgência em técnica, instinto em espetáculo. É uma história de reciprocidade: ao mesmo tempo que nos espelhamos na fauna, nossa curiosidade e cuidado podem iluminar caminhos de preservação — semear inovação para proteger os habitats e as espécies que nos mostraram, primeiro, como mover-se sobre a neve.
Em tempos de Olimpíadas, celebrar esses elos é também um convite à responsabilidade. Que o deslizar dos atletas nas pistas seja lembrado como um eco do movimento ancestral dos animais, e que esse espelho inspire políticas e atitudes que garantam um horizonte límpido para as próximas gerações.





















