Por Stella Ferrari — A Casa Branca anunciou nesta sexta-feira que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto impondo um imposto aduaneiro global de 10% sobre todas as importações, medida que entrará em vigor em 24 de fevereiro. A iniciativa foi divulgada poucas horas depois que a Corte Suprema declarou ilegal o uso de poderes de emergência que embasavam as tarifas anunciadas no verão passado.
Em publicação na sua rede social Truth, Trump afirmou ser “um grande honor” ter assinado a tarifa global de 10%, que, segundo a Casa Branca, passará a valer na terça-feira, 24 de fevereiro. A administração explica que mesmo parceiros comerciais que haviam obtido acordos tarifários privilegiados deverão, por ora, recolher o novo tributo de 10%.
A decisão da Suprema Corte — tomada por 6 votos a 3 — considerou que a lei usada anteriormente pelo presidente, a International Emergency Economic Powers Act (IEEPA) de 1977, não autoriza a imposição de tarifas aduaneiras sob o argumento de emergência nacional. O pronunciamento atingiu um dos pilares da agenda comercial da administração, pondo em xeque a legitimidade de tarifas anunciadas em ocasiões como o chamado “Liberation Day” e as tarifas sobre importações da China, México e Canadá.
Em resposta imediata à decisão judicial, a administração recorreu a uma alternativa legal inédita: a Seção do Trade Act de 1974, jamais utilizada até agora para esse fim. Esse dispositivo permite ao presidente aplicar tarifas temporárias, por até 150 dias, para enfrentar “déficits amplos e graves na balança de pagamentos dos Estados Unidos” ou outros problemas fundamentais nos pagamentos internacionais. A medida foi descrita pela Casa Branca como transitória, enquanto o governo busca “outras autoridades competentes para aplicar tarifas mais apropriadas ou pré-negociadas”, declarou um funcionário à agência AFP.
A União Europeia informou que aguarda esclarecimentos sobre as medidas concretas que serão adotadas em resposta à decisão da Corte. A universalização da tarifa — mesmo sobre países com acordos previamente negociados — eleva a tensão diplomática e traz incerteza imediata às cadeias de valor globais.
O presidente reagiu com forte crítica à Suprema Corte, classificando a decisão como “uma vergonha” e alegando, sem apresentar provas, influências externas sobre o voto dos juízes. Trump também atacou membros da corte, inclusive juízes indicados por ele que votaram contra a posição do governo. A batalha jurídica ressalta um conflito institucional que reverbera diretamente no desenho de políticas comerciais e nos motores do crescimento americano.
Do ponto de vista econômico, a medida é um freio de efeitos mistos: por um lado, pressiona importações e pode melhorar, temporariamente, indicadores comerciais; por outro, eleva custos para empresas e consumidores, intensificando riscos inflacionários e possíveis retaliações. Em termos de estratégia, a administração optou por uma calibragem rápida — um motor acionado em baixa marcha para devolver autoridade imediata à política tarifária — enquanto busca soluções legais de longo prazo.
Como estrategista de mercados, observo que a adoção do Trade Act de 1974 como instrumento principal é uma manobra técnica relevante: trata-se de acionar um mecanismo pouco usado, quase um componente de engenharia legal, para manter a aceleração da agenda comercial até que o tabuleiro jurídico seja redesenhado. Investidores e empresas deverão monitorar de perto os esclarecimentos da administração, as reações de parceiros comerciais e qualquer ação legislativa que possa formalizar tarifas permanentes ou acordos revisados.
Em resumo: a partir de 24 de fevereiro, os Estados Unidos aplicarão uma tarifa global de 10% por até 150 dias usando base legal alternativa ao IEEPA. A medida marca um capítulo novo e contestado na política comercial americana, com potenciais impactos sobre cadeias globais, inflação e relações bilaterais.






















