Por Marco Severini — Em um movimento que expõe as fragilidades administrativas e sanitárias por trás da indústria do turismo animal, ao menos 72 tigres foram encontrados mortos nas últimas semanas em um zoológico privado no norte da Tailândia, na província de Chiang Mai. A investigação veterinária detectou a presença do altamente contagioso cimurro canino e infecções bacterianas respiratórias entre os grandes felinos.
O diagnóstico foi confirmado pelo escritório veterinário provincial. Segundo Somchuan Ratanamungklanon, diretor do departamento nacional veterinário, “o vírus é mais difícil de detectar nas tigres do que em animais domésticos como gatos ou cães. Quando nos demos conta de que estavam doentes, já era tarde demais”. A declaração sublinha a complexidade laboratorial e a eventual demora nas medidas de contenção — uma sequência que, no tabuleiro da gestão de risco, equivale a permitir que um bispo cruze uma diagonal decisiva antes de reagir.
O local afetado, conhecido como Tiger Kingdom, oferece aos visitantes a possibilidade de tocar e fotografar-se com os felinos, uma atividade que alimenta tanto a economia local quanto as críticas de ativistas. Organizações de proteção animal, como a Peta Asia, declararam que “essas tigres morreram como viveram: na miséria, em captividade e no medo”, acrescentando que uma redução no fluxo turístico poderia tornar essas práticas economicamente inviáveis e, assim, menos propensas a resultar em tragédias.
Do ponto de vista técnico, o aparecimento concomitante de cimurro canino e bactérias respiratórias cria um cenário de múltiplas pressões sobre a saúde dos animais. O cimurro é conhecido por sua capacidade de atravessar espécies e provocar quadros graves em carnívoros selvagens; combinado com infecções secundárias, o índice de mortalidade pode crescer exponencialmente. Em termos de arquitetura institucional, estamos diante de alicerces frágeis: medidas inadequadas de biossegurança, práticas de manejo que aumentam o estresse animal e lacunas na vigilância epidemiológica.
É preciso também considerar a dimensão econômica e geopolítica em jogo. O Turismo que transforma animais selvagens em atrações é parte de uma cadeia de valor — e de poder — que recalibra incentivos locais. O fechamento ou a regulamentação rigorosa desses empreendimentos implicaria um redesenho de fronteiras invisíveis entre conservação, renda e imagem internacional da Tailândia como destino turístico.
Em suma, a sequência de mortes é um alerta estratégico: além da tragédia imediata para os animais, evidencia uma falha sistêmica na gestão do risco biológico e na integração entre regulamentação, fiscalização e responsabilidade econômica. A resposta apropriada exige medidas técnicas (vacinação, quarentena, testes de diagnóstico mais sensíveis), políticas (regulação e fiscalização reforçadas) e uma reavaliação ética da exploração de espécies vulneráveis para entretenimento. No grande tabuleiro da diplomacia ambiental, episódios como este redesenham linhas de pressão e expõem, com clareza arquitetônica, onde estão os pontos de colapso.






















