Fecham-se os ciclos de emoção e expectativa que marcaram uma edição caseira dos Jogos de Inverno em Milão-Cortina. Houve gosto amargo para Arianna Fontana — a sua última corrida nos 1.500 metros não rendeu um lugar no pódio —, mas o balanço da pista curta mantém-se rico: os azzurri garantiram o bronze na staffetta 5.000 metros masculino, e a nova geração da Itália voltou a dar sinais consistentes de progresso.
Na prova dos 1.500 m, a estrela da patinação veloz tentou até o fim. Depois de uma queda nas baterias que deixou contusão no glúteo e nas costas, Arianna Fontana disputou a quinta e última final de sua carreira olímpica e cruzou a linha em quinto lugar. Foi um desfecho que mistura frustração e reconhecimento: aos 35 anos, com cinco finais disputadas nesta edição, ela encerra os Jogos em casa com um desempenho que confirma sua dimensão histórica no esporte italiano — múltiplas medalhas e uma trajetória que transcendencia resultados isolados.
A partida dos 1.500 m esteve repleta de surpresas. Saltaram da disputa nomes de peso, abrindo caminho para que Fontana buscasse uma nova consagração; no entanto, as consequências físicas da queda limitaram suas reservas. Em tribuna, cenas humanas da competição: o ministro Matteo Salvini acompanhou tenso as alternâncias da prova, ora cerrando os punhos, ora aplaudindo. A imagem resume bem o que são os Jogos — palco onde política, emoção e memória coletiva se entrelaçam.
Se a despedida de Arianna Fontana não teve o brilho do pódio individual, o presente e o futuro da disciplina respiram com força. Arianna Sighel, já conhecida pelo sobrenome que carrega uma tradição no gelo (filha do velocista Roberto Sighel), consolidou-se com uma atuação sólida e terminou seis entre as melhores, enquanto a jovem Elisa Confortola confirmou-se como herdeira natural da vaga de liderança feminina: uma atleta em crescimento, que fechou a prova em oitavo e acumulou experiência valiosa.
A prova feminina também ficou marcada pela recuperação de Xandra Velzeboer, que, apesar de uma semifinal atribulada — com uma queda perigosa no interior da curva — retornou à pista para a final B e ofereceu uma lição de caráter e esportividade.
No turno dos revezamentos, a Itália mostrou coesão. Na staffetta 5.000 metros masculina, a Holanda subiu ao degrau mais alto, a Coreia do Sul levou o prata, e a equipe composta por Pietro Sighel, Thomas Nadalini, Luca Spechenhauser e Andrea Cassinelli conquistou o bronze, acrescentando um pingo de redenção ao encerramento do programa de short track. A medalha masculina aumentou o total da delegação italiana e simbolizou a resiliência de um movimento que, mesmo numa noite de despedida para uma rainha do gelo, soube reinventar-se.
Mais do que resultados, ficou a imagem de uma geração que passa o bastão com dignidade, de uma atleta que sai de cena levando consigo uma coleção de memórias e de um país que reafirma, nas pistas de curta distância, uma tradição de técnica e resistência. Em breve, será necessário contatar o passado e projetar o futuro: há quem olhe para 2030, mas antes cabe a cada um metabolizar o que estes dias em Milão-Cortina representaram — para o esporte italiano e para a própria identidade coletiva que o acompanha.
Otávio Marchesini — Espresso Italia





















