Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — O início de 2026, que prometia ser um ano de afirma afirmações e conquistas para Jannik Sinner, tomou um rumo menos linear. A eliminação precoce em Doha, às mãos do jovem Jakub Mensik, reacende perguntas sobre a forma do tenista alto-atesino e sobre a robustez daquela máquina competitiva que o levou ao topo do circuito.
Depois da semifinal no Australian Open, onde havia sido parado por Novak Djokovic — e em meio a uma pausa estratégica da Coppa Davis justificada como preparação para a nova stagione —, Sinner parecia pronto para transformar expectativa em resultados. Em vez disso, a derrota em Doha, partida que ultrapassou a meia-noite e meia local e foi decidida nos detalhes, expõe fragilidades que merecem leitura precisa e serena.
O próprio protagonista não aceita a palavra crise. “E’ andata come é andata, ora vediamo dove migliorare. Nessun disastro, sono sereno”, afirmou no calor úmido da noite de Doha, frase que traduz uma postura de trabalho e paciência. O rosto, contudo, denunciava cansaço; e a explicação técnica não se fez esperar: a umidade, a adaptação a um torneio inédito para ele e a nova sintonia de mecanismos táticos podem ter pesado.
Há também mérito adversário. Mensik, 20 anos, já com um título de Masters 1000 no currículo, mostrou um repertório completo: potência de fundo, agilidade inesperada para quase dois metros de altura, toque sob rede e um saque com percentuais de primeiro serviço muito elevados. Tudo isso desestabilizou Sinner, surpreendido pela falta de precedentes entre os dois e pelas soluções técnicas do tcheco.
Paolo Bertolucci oferece uma leitura pertinente: Sinner “não está tão confiante como no ano passado”; pode estar inserindo novas soluções no seu jogo que ainda não assimilou por inteiro, ou então acumulou carga física excessiva na preparação — síntese que casa com a impressão de um atleta em transição mais do que em queda absoluta. “L’importante è che ora sappia cosa fare”, disse Bertolucci, realçando a clareza de propósito do jogador.
Um dado estatístico chama atenção e confirma a diferença: no início de 2026 Sinner vem sofrendo para fechar pontos decisivos, vencendo apenas uma em cada três oportunidades de break. São esses pontos — como ensinou Roger Federer — que invariavelmente definem encontros entre níveis próximos.
No quadro mais amplo do ranking, Carlos Alcaraz mantém folga considerável, com quase 3.000 pontos de vantagem e a possibilidade de ampliá-la indo à final em Doha. O calendário segue com etapas de elevado peso — Indian Wells e Miami — onde Sinner buscará recuperar ritmo, confiança e a precisão nos momentos-chave.
O interesse aqui transcende o resultado isolado. O percurso de Jannik Sinner é também um termômetro das estruturas que moldam talentos na Europa: formação, gestão de calendário, decisões sobre cargas e descansos, e a capacidade de renovação tática. A derrota em Doha é um sinal de alerta, não de colapso. Como disse o próprio jogador em tom pragmático, “Ne uscirò col lavoro” — uma promessa que, historicamente, tem sido a melhor resposta do esporte quando confrontado com a brusca interrupção do sucesso.
Resta acompanhar as escolhas da sua equipe e a leitura que Sinner fará nas próximas semanas. Indian Wells e Miami serão bancos-de-prova onde o diálogo entre passado e futuro do seu jogo ficará mais claro — para ele, para os rivais e para quem observa o tênis como um espelho das transformações sociais e institucionais que continuam a definir o alto rendimento.






















