Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite que confirmou a hierarquia continental, o poderio turco do Ziraat venceu o Itas Trentino por 3 a 1 e fechou a fase de grupos da Champions League com campanha perfeita. O resultado, no entanto, não apaga a leitura mais relevante para Trento: jogando em situação de emergência clínica e técnica, a equipe italiana saiu com a honra preservada e a classificação assegurada como melhor segunda do grupo.
O duelo refletiu, com clareza, duas narrativas distintas. De um lado, a máquina ofensiva turca, habilitada a explorar brechas com um arsenal de atacantes e com o incontestável aporte de experiência. Do outro, uma formação do Itas limitada por baixas sensíveis — as ausências de Michieletto e Flavio por lesão — e pela recuperação parcial de Lavia, que retornou ao time titular ainda longe da plena condição física. A combinação destes fatores tornou o confronto menos sobre tática e mais sobre resistência.
Indivíduos traduziram bem essas histórias. O ponta exímio do Ziraat, Abdel-Aziz, foi decisivo e terminou como principal pontuador da partida, com 35 pontos, demonstrando por que é referência continental. Pelo lado trentino, sobressaiu a performance concentrada de Faure, que acumulou cerca de 20 pontos esforçados, e as indicações de evolução do jovem Bartha, cujo progresso pode ser uma peça chave nos episódios que virão. Ainda que o opaco rendimento de Torwienen tenha pesado, o retorno de Lavia ao onze inicial deixou claro: Trento caminha para recuperar recursos importantes no mata-mata.
No primeiro set, o Ziraat impôs ritmo desde o início, abrindo vantagem e capitalizando falhas no saque e na recepção do Itas, que não encontrou alternativas eficazes para reagir. O placar inaugural terminou a favor dos visitantes, com o time turco punindo cada desatenção. O segundo parcial trouxe a melhor leitura dos gialloblù: Trento prevaleceu com maior personalidade, marcou seu primeiro e único ponto de vantagem na série e retomou controle graças a aces e à solidez do fundamento de bloqueio — um episódio que confirmou a capacidade de reagir mesmo com elenco curto.
O terceiro set voltou a evidenciar a capacidade ofensiva do Ziraat, que, apoiado em momentos de brilhantismo do seu posto 4, recuperou o comando do jogo. Trento buscou responder com ajustes do treinador e boas combinações entre passe e ataque, mas a consistência visitante falou mais alto na fase decisiva. No quarto e último set, a equipe turca soube fechar o confronto com pragmatismo, convertendo pontos nos momentos cruciais e encerrando a série em quatro parciais.
Para o Itas Trentino, o saldo prático é inequívoco: apesar da derrota, a equipe terminou a fase de grupos com quatro vitórias e 11 pontos, garantindo a melhor segunda colocação da Pool A e a classificação para os oitavos-de-final. O adversário será o Varsavia (a melhor terceira qualificada), um confronto que, em teoria, devolve à Trento a condição de favorita relativa, especialmente se o departamento médico viabilizar reforços.
Mais do que resultado, a partida serve como termômetro. O desempenho coletivo do Itas, em circunstâncias adversas, mostrou resiliência e indicou olheiros claros: a consolidação de Faure como referência pontual, a progressão de Bartha e a importância do restabelecimento total de Lavia para as ambições trentinas. No panorama mais amplo da Champions League, o triunfo do Ziraat apenas reforça o mapa de forças: clubes com profundo banco e ritmo de elite tendem a dominar fases decisivas.
Nas próximas semanas, a narrativa muda do diagnóstico para a prescrição. Trento precisa de tempo médico e de ajuste tático; a Champions exige que essas lacunas sejam preenchidas. Se a recuperação física ocorrer, o Itas terá credenciais suficientes para ambicionar mais do que a mera participação — terá uma chance real de disputar, com propriedade, as etapas eliminatórias.



















