Por Otávio Marchesini — Diretor técnico da seleção feminina, Gianluca Rulfi observa com cautela o impulso gerado pelas glórias recentes, mas alerta: sem intervenções estruturais o movimento pode perder o traino das grandes conquistas. Falamos com ele no retorno de Cortina para o Monregalese, num trecho em que um problema mecânico interrompeu a viagem — um pequeno imprevisto que, na sua leitura, ilustra bem a fragilidade das rotinas que sustentam o alto rendimento.
Rulfi, que se formou como atleta e depois como técnico nas pistas do Mondolé Ski, reconhece o potencial simbólico das medalhas: «As Olimpíadas alimentam sonhos, as vitórias amplificam a visibilidade. Mas é preciso transformar essa onda emotiva em políticas concretas». O técnico lembra um dado histórico: entre Torino 2006 e hoje houve um deslocamento de custos sobre os clubes — as pistas, que em muitos casos nasceram com apoio público, passaram a ser oneradas por associações e escolas.
«Daquele momento para cá, muitos sci club della Via Lattea tiveram de arcar com despesas elevadas após a liberalização de vários impianti. Não é sustentável», afirma Rulfi. Para ele, a discussão não é apenas sobre prestígio: é sobre tornar o esqui alpino uma atividade realmente praticável. «Precisamos de medidas que reduzam os custos, que tornem o esqui acessível tanto para atletas em formação quanto para as famílias que frequentam as estações. Caso contrário, a imagem de um desporto caro e de elite se consolida — e perdemos gerações», completa.
O contraponto existe: modalidades como bobsled e slittino parecem manter programação e investimento, ao passo que o esqui alpino sofre com barreiras financeiras para a base. «Quando fundos públicos são aplicados no esporte, às vezes são esquecidos detalhes cruciais: subsídios direcionados ao treinamento de base, políticas de manutenção das pistas e programas para reduzir o preço do acesso», observa Rulfi. Em sua visão, as medalhas são momentos de visibilidade, mas quase sempre efêmeros se não vierem acompanhados por políticas contínuas.
Não é por falta de heroísmo que o panorama muda. Rulfi cita o caso de Federica Brignone — cujo desempenho em Cortina superou expectativas — e lembra também a jovem Flora Tabanelli, cujas presenças no pódio e no centro JMedical de recuperação em Turim simbolizam a rede de suporte necessária ao desporto moderno. «Se tivéssemos dito que, se Federica apenas voltasse a andar normalmente já estaríamos satisfeitos, teríamos subestimado a dimensão humana da sua recuperação. Ainda assim, ela conquistou medalhas», comenta.
O treinador traz na memória outro episódio que diz muito sobre imprevisibilidade e oportunidade: em Sochi, no masculino, Innerhofer converteu treinos limitados em resultado extraordinário — duas medalhas obtidas num contexto de preparação atípica. «Há sempre uma mistura de sorte, experiência e preparação técnica que converte-se em sucesso. Mas não podemos depender só da sorte», afirma Rulfi.
O diagnóstico é claro e pragmático: é preciso que federações, entidades regionais e órgãos públicos conjuguem esforços para reduzir o peso dos custos, organizar incentivos para clubes de base e preservar infraestruturas. Sem essas ações, o risco é que o efeito das medalhas se dissipe rapidamente — deixando para trás apenas imagens brilhantes e, na prática, menos praticantes.
Para além do relato técnico, o apelo de Rulfi é cultural: manter viva uma tradição esportiva que reflete identidades locais e produz memórias coletivas, respeitando o presente e preparando o futuro. «Não é só ganhar uma medalha: é permitir que quem sonha com isso possa transformar sonho em trajetória», conclui.






















