O gigante europeu Airbus anunciou resultados financeiros robustos para 2025: receitas de 73,4 bilhões de euros, um Ebit ajustado de 7,1 bilhões e um lucro recorde líquido de 5,2 bilhões de euros, alta de 23% em relação ao ano anterior. No entanto, por trás desses números positivos, persiste um problema estrutural que impede a empresa de transformar totalmente a demanda em entregas: a crise dos motores fornecidos pela Pratt & Whitney.
O desequilíbrio entre encomendas e saída de aviões prontos para operação revela a fragilidade de uma cadeia de fornecimento altamente integrada e interdependente. Apesar de projetar a entrega de 870 aeronaves em 2026 — número superior às 793 unidades entregues em 2025 — a Airbus tem enfrentado atrasos significativos por conta da indisponibilidade de propulsores.
Segundo a própria fabricante, a escassez de motores Pratt & Whitney foi “significativa” e obrigou as linhas de montagem em Toulouse a manterem vários gliders — fuselagens de aeronaves sem motores — para não interromper a cadência produtiva. Fontes dentro das fábricas confirmam a presença de ao menos uma dezena de A320neo e A321neo aguardando propulsores. O problema remonta a inspeções adicionais impostas desde 2023, que chegaram a prazos de até 700 dias em alguns casos, reduzindo a disponibilidade de unidades aptas a voar.
Os impactos se refletem nos números mensais: as entregas em janeiro registraram o nível mais baixo desde 2020, apontando para o início de ano mais fraco em pelo menos uma década. Enquanto isso, o concorrente norte-americano Boeing surfou na vantagem logística e divulgou o maior volume de entregas desde 2018 — parcialmente por não depender dos motores com problemas que afetam os modelos mais vendidos da Airbus.
O episódio destaca um dilema recorrente da indústria aeroespacial europeia: a excelência tecnológica coexiste com vulnerabilidades em cadeias de valor transnacionais. A Airbus, por ora, adota postura firme. Em comunicado, aponta que o “não cumprimento” das obrigações de fornecimento por parte da Pratt & Whitney afeta suas previsões e a trajetória de aumento da produção, e prepara medidas legais como possibilidade concreta para exigir responsabilidades.
Do ponto de vista histórico e institucional, trata-se de uma disputa que extrapola o balanço trimestral: envolve confiança entre fornecedores estratégicos, capacidade de resposta regulatória e o desenho industrial de uma Europa que busca autonomia em setores-chave. Estádios e clubes têm suas raízes locais; na indústria aeronáutica, as linhas de montagem e as plantas de motores são igualmente marcos de identidades regionais — Toulouse, por exemplo, permanece símbolo da engenharia aeronáutica europeia.
Em resumo, a Airbus fecha 2025 com sólida performance financeira, mas com um alerta estrutural: o sucesso comercial esbarra na disponibilidade de motores. A capacidade de transformar encomendas em aeronaves entregues dependerá tanto da resolução técnica das inspeções nos motores quanto da evolução — e eventual responsabilização — dos fornecedores envolvidos.
Sobre a leitura política e social: a crise revela o custo real da globalização produtiva, quando falhas em um elo da cadeia reverberam pela economia regional e pelos mercados globais de transporte aéreo. A próxima jogada, judicial ou técnica, será decisiva para definir se a Europa mantém a vantagem conquistada à custa de ajustes finos e cooperação industrial sustentável.
Otávio Marchesini é repórter da Espresso Italia. Analisa o esporte como fenômeno social e industrial; aqui aplica o mesmo olhar para a indústria aeronáutica.






















