Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A recente sequência de medalhas italianas no short track reacendeu um debate estrutural que há anos atravessa o esporte do gelo em Itália: a ausência de instalações cobertas e permanentes. Após o ouro trazido pelo trio Ghiotto, Malfatti e Giovannini, vozes históricas do movimento — como Enrico Fabris, campeão em Turim 2006 — voltaram a alertar para a fragilidade do sistema de infraestruturas.
Fabris foi direto: “Sem um impianto si vive come nomadi”. A imagem exprime bem a condição dos praticantes: pistas regulamentares existem, mas são essencialmente ao ar livre. No país há duas pistas longas reconhecidas — a Ritten Arena, em Collalbo, e a situada em Baselga di Pinè — contudo ambas são expostas às intempéries e, portanto, insuficientes para um projeto de alta performance continuada.
O cenário agrava-se com a decisão de desmontar o complexo erguido em Rho, na Milano, após os Jogos de Inverno: a partir de domingo a estrutura deixa de existir, e a Itália volta a ficar sem um estádio indoor de referência para treinos sistemáticos. Para atletas e técnicos, isso significa depender do clima, de calendários improvisados e do voluntariado que sustenta muitos clubes locais.
Do ponto de vista municipal, a conversa se intensifica em Pinè. O prefeito Alessandro Santuari retoma a hipótese de dotar o território de uma cobertura permanente ao citá-la como elemento-chave que justificaria a continuidade do projeto olímpico regional — lembrando que o Trentino será palco das Olimpiadi giovanili 2028. “Questo sport ci sta dando delle soddisfazioni incredibili e ormai non è più una meteora”, afirma Santuari, sublinhando a necessidade de transformar o sucesso desportivo em legado estrutural.
Economicamente, as cifras não são triviais: uma cobertura de cerca de 20 mil metros quadrados chegou a ser estimada em aproximadamente 60 milhões de euros apenas para a pista longa. Alternativas mais modestas, como tensões ou estruturas temporárias de menor custo, foram avaliadas, mas o desafio permanece encontrar uma mediação — segundo o prefeito — que concilie impacto reduzido com funcionalidade técnica.
Além do cálculo financeiro, há uma questão de estratégia esportiva e cultural. O speed skating demonstrou nos últimos anos ter corpo técnico e talento juvenil suficientes para justificar investimento público e privado. Porém, sem um ice rink coberto, a formação de base, o trabalho de alto rendimento e a capacidade de sediar competições internacionais ficam seriamente comprometidos.
O debate em Pinè é, portanto, sintoma de uma discussão maior sobre como a Itália gere a transição entre performances episódicas e políticas sustentáveis de infraestrutura esportiva. Se a administração local pretende transformar o entusiasmo atual em continuidade, será preciso negociar com federações, investidores e o próprio sistema regional para desenhar uma solução que não sacrifique nem o território nem a ambição desportiva.
Em termos práticos, a expectativa é clara: garantir um impianto coperto mudaria o patamar de preparação e permitiria ao Trentino afirmar-se como um polo de formação e competição. Até lá, o país continua a viver de forma nômade, esperando que as medalhas recentes não fiquem restritas a um ciclo efêmero, mas atuem como catalisador para um projeto estrutural duradouro.






















