Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
A temporada europeia de 2026 tem revelado, para a Atalanta, um adversário persistente e interno: ela própria. Mais do que ser superada por rivais de diferentes estaturas, a equipe nerazzurra tem se desmontado sozinha nos momentos iniciais dos jogos, devolvendo aos oponentes vantagens que nasciam mais da sua inércia do que da superioridade adversária.
Contra o Borussia Dortmund, como já aconteceu frente ao Athletic Club e ao Union Saint-Gilloise, a Atalanta foi penalizada por um início desatento. O 21 de janeiro em Bergamo, contra o Bilbao, permanece como exemplo: uma escassez de 15 minutos, em casa, custou três gols e desmontou um plano de jogo construído com a habitual precisão do técnico Palladino. Na semana seguinte, em Bruxelas, um erro imediato — aos dois minutos — permitiu a Hien servir Florucz e abrir o placar, com Sportiello obrigado a intervir sobre a linha. A repetição do padrão na Alemanha mostrou que a fragilidade invade partidas de categorias técnicas distintas.
Em Dortmund, o lance que abriu a partida saiu de um cruzamento de Ryerson — jogador conhecido pela qualidade das assistências (14ª da temporada) — e terminou nos pés de Guirassy, já na casa das suas dezenas de gols na temporada (16º). Erros de leitura e de marcação, combinados com entregas de bola em profundidade, voltaram a expor lacunas defensivas que a equipe costuma não demonstrar.
A explicação logística também teve seu lugar: o time chegou com um quarto de hora extra para entrar no clima de jogo — o ônibus do clube ficou preso no trânsito —, mas a desculpa não disfarça o problema de abordagem. «O que me dispiace è aver messo la gara sul binario che non volevamo dopo soli 3′. Sapevamo che erano giocatori veloci… nel primo tempo abbiamo sbagliato tanto a livello tecnico: abbiamo concesso perdendo palla in profondità, era un gol evitabile, non abbiamo marcato in area», analisou Palladino após a partida. A fala do treinador é sintoma de uma frustração legítima: o erro inicial tende a conturbar toda a narrativa do jogo.
Os números confirmam a tendência. Sob o comando de Palladino, a equipe marcou apenas 13 dos 35 gols na temporada durante o primeiro tempo. No outro lado, foram 8 dos 17 gols sofridos até o intervalo — e, em três das quatro ocasiões em que isso ocorreu, a partida terminou em derrota para a Atalanta. Estatísticas que sinalizam como o começo de cada jogo tem impacto decisivo sobre o resultado final.
Não é, porém, um destino imutável. As substituições e ajustes táticos no segundo tempo têm produzido reações: jogadores como Krstovic, Sulemana e Samardzic têm injetado dinamismo no ataque, tentando soluções de fora da área e pressionando até o apito final. Ainda assim, depender de uma recuperação tardia é um arquétipo perigoso para um clube que pretende disputar, com regularidade, as primeiras posições e as competições europeias.
Agora a lupa se volta para o próximo compromisso: o reencontro com o Napoli, adversário que simbolicamente batizou a era Palladino. Será um novo teste para confrontar o padrão das falsas partidas e verificar se a equipe ajustou a preparação mental e tática para evitar recaídas. A análise é simples e dura: se o problema é sistemático, o remédio exige mudança de cultura, leitura coletiva e disciplina — ingredientes que transformam um acordo de intenção em desempenho consistente.
Mais do que um problema de 45 minutos, a questão da Atalanta é uma janela para entender como se constrói (e se reconstrói) a identidade esportiva de um clube no contexto italiano contemporâneo: entre tradição tática, pressões e a necessidade de adaptação constante, o equilíbrio entre controle e reação define trajetórias. O próximo capítulo, diante do Napoli, não será apenas um confronto de 90 minutos, mas um termômetro sobre a saúde coletiva da squadra.





















