Os indicadores mais recentes confirmam um movimento positivo no enfrentamento do tumor de mama na Itália: a mortalidade por essa neoplasia diminuiu cerca de 6% ao longo dos últimos cinco anos. Esse recuo, atribuído sobretudo à difusão dos programas de diagnóstico precoce e aos avanços terapêuticos, foi um dos eixos de discussão na abertura da 23ª edição do congresso “Focus sul carcinoma mammario”, realizado em Udine.
O encontro, que há mais de duas décadas funciona como referência para atualização clínica e científica, ganha em 2026 um significado adicional: pela primeira vez a cidade de Udine sedia a Consensus Conference nacional sobre carcinoma mamário, prevista para o segundo dia de trabalhos. A iniciativa busca alinhar práticas, reduzir variações regionais na assistência e fortalecer a cadeia de cuidado entre diagnóstico, cirurgia, terapias sistêmicas e acompanhamento.
Os números citados pelos especialistas confirmam a dimensão do problema e os sinais de progresso. Anualmente, surgem na Itália mais de 53 mil novos casos de câncer de mama, dos quais menos de mil ocorrem em homens. Atualmente, a sobrevida líquida em cinco anos supera os 88% a nível nacional, mantendo-se em patamares semelhantes em regiões como Friuli-Venezia Giulia, segundo observou Fabio Puglisi, professor ordinário de Oncologia Médica da Universidade de Udine e diretor do Departamento de Oncologia Médica do IRCCS CRO de Aviano. Quando a doença é detectada em estágio inicial, a sobrevivência em cinco anos ultrapassa 95%.
Esses resultados não são fruto do acaso. São a expressão de trajetórias terapêuticas cada vez mais integradas e de uma cultura clínica que privilegia a personalização do tratamento. “São números que atestam a eficácia de percursos de cura mais integrados — e por isso é fundamental intensificar a colaboração entre os diferentes especialistas envolvidos na gestão da paciente”, afirmou Puglisi.
No painel sobre inovações, Lucia Del Mastro, diretora da Clínica de Oncologia Médica do IRCCS Ospedale Policlinico San Martino, Universidade de Gênova, destacou dois vetores transformadores: a consolidação dos inibidores CDK4/6 em combinação com terapia endócrina no cenário do tumor de mama precoce — com redução significativa do risco de recidiva e benefício em termos de sobrevivência — e o uso crescente dos testes genômicos. Estes últimos permitem identificar pacientes em que é seguro evitar a quimioterapia após a cirurgia, reduzindo efeitos colaterais e preservando qualidade de vida.
Essa ênfase na qualidade de vida foi tratada como prioridade. Sintomas associados à privação estrogênica, como ondas de calor e secura vaginal, têm impacto direto na adesão ao tratamento e, por consequência, no prognóstico. A discussão em Udine aborda tanto as terapias medicamentosas quanto estratégias de suporte multidisciplinar para mitigar esses efeitos e manter as pacientes em programas terapêuticos bem sucedidos.
Do ponto de vista social e institucional, a queda da mortalidade sublinha a importância das políticas de saúde pública que garantem acesso ao rastreamento e à inovação terapêutica. Mas também revela desafios: a homogeneização das práticas clínicas entre regiões e o fortalecimento de redes que integrem oncologia, cirurgia, anatomia patológica, genética e cuidados paliativos.
Em suma, os dados e debates em Udine confirmam um cenário de progresso — resultado de investimentos em prevenção, pesquisa e organização clínica —, ao mesmo tempo em que lembram que manter e aprofundar esses ganhos exigirá coordenação, recursos e atenção contínua às dimensões humanas da doença.






















