Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Às vésperas das competições finais em Cortina, o balanço do trabalho preparatório assume caráter estrutural mais do que simbólico. Em entrevista, Fabio Saldini, comissário do governo e administrador da Simico, afirmou que as intervenções realizadas para os Jogos deixaram uma herança concreta: a transformação de Cortina numa espécie de cidadela do esporte.
Segundo Saldini, todos os equipamentos — do Palazzo del Ghiaccio ao Villaggio Olimpico, passando pelo complexo das Tofane — foram adaptados para garantir plena acessibilidade. A preocupação com a universalidade de uso é central, especialmente com as Paralimpiadi prestes a começar.
Um dos pontos mais observados pela população local foi a situação da cabine Apollonio Socrepes. Não concluída a tempo dos Jogos Olímpicos, ela será, conforme Saldini, colocada em operação até 6 de março, data de abertura do evento subsequente. “Tudo está pronto — disse o administrador — faltam apenas algumas provas técnicas e o sistema, pelo qual já tivemos reconhecimentos importantes pela rapidez e pela forma de execução, entrará em funcionamento a tempo das Paralimpiadi.”
Essa ligação por teleférico não é apenas uma obra de engenharia: é um instrumento de reconfiguração da mobilidade. A Apollonio Socrepes nasceu de uma parceria público-privada e, embora não estivesse prevista para os Jogos, foi solicitada pela Fundação Milano-Cortina para reduzir o fluxo de carros no centro. Na visão de Saldini, a proposta é ambiciosa: chegar a uma Cortina sem automóveis — ou com tráfego veicular fortemente restrito — onde o visitante deixa o carro nas portas da cidade e utiliza navettes e outros meios de transporte sustentáveis.
O plano de mobilidade será reforçado pelo fato de que, com a cabine a operar, haverá menor dependência das vans para espectadores. Para além da logística do curto prazo, Saldini sublinha que o mandato da Simico não termina com as competições. Das 94 obras previstas, nem todas foram concluídas; o objetivo é finalizar o conjunto até 2033, consolidando uma visão de longo prazo para o território.
Entre os projetos imediatos, o chamado lotto zero — já finalizado — ampliou a carregada de via Lungo Boite e permitirá, antes do próximo Natal, a pedonalização de via Cesare Battisti. Está também prestes a começar o lote 1, a variante Sul, que mudará o acesso por quem vem de Pieve di Cadore e reduzirá o trânsito no centro histórico. Esse novo portal urbano oferecerá, já a partir da próxima temporada de inverno, um estacionamento de superfície com cerca de 300 vagas, ligado à nova cabine por meio de serviços de transporte.
O tema dos estacionamentos permanece sensível. A proposta de Saldini é o desenho de uma mobilidade integrada que concilie turismo, preservação urbana e acessibilidade: menos carros no coração de Cortina, mais espaços para pedestres e um sistema de transporte complementar que funcione de forma contínua após os Jogos.
Do ponto de vista histórico e cultural, a intervenção em Cortina traduz uma ambição que vai além da realização esportiva: é a tentativa de transformar o evento em alavanca para uma nova ordem territorial. Como sempre ocorre quando grandes projetos públicos encontram a geografia e a memória de uma comunidade, o teste não será apenas técnico, mas social. A questão que permanece é se a cidade e seus visitantes aceitarão a troca — mais espaço público e mobilidade coletiva — em lugar do acesso automóvel tradicional. Para Saldini e para a Simico, essa escolha já tem um nome: cidadela do esporte.






















