Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
O ingresso do esqui-alpinismo nas Olimpíadas de Inverno foi recebido com expectativa: uma modalidade que nasce do encontro entre técnica, resistência e um relacionamento íntimo com a montanha. Para evitar provas longas e complexas em sua estreia olímpica, os organizadores optaram por uma fórmula curta, de alta intensidade: o sprint. Em poucos minutos, os atletas realizam uma subida em zigue-zague com as peles nos esquis, trocam para a perícia de subida a pé por uma escada de madeira —uma alegoria, se quisermos, da própria montanha— e descem num trecho vertiginoso até a linha de chegada.
Não se trata de negar a novidade: introduzir o esqui-alpinismo no programa olímpico pode ser um avanço legítimo para a modalidade. O problema é a forma. O formato sprint tensiona e, em certa medida, subtrai aquilo que sempre constituiu o sentido primeiro do esporte de montanha: o tempo de contemplação, a travessia por bosques e vales nevados, o ouvido atento aos ruídos naturais, a relação com o cenário que atravessamos. Reduzir essa experiência a poucos minutos de espetáculo é transformá-la em algo que se aproxima mais de um show televisivo do que de uma prática de montanha.
O episódio é sintomático de uma tendência mais ampla: a aceleração da experiência esportiva e a busca permanente por façanhas espetaculares. Do alpinismo à escalada, do registro do tempo mais curto no Eiger ao K2 conquistado «num piscar de olhos», há uma corrida por recordes que privilegia o impacto imediato e o retorno midiático. A consequência é uma fruição cada vez mais instantânea do que historicamente exigia calma e paciência: descobrir rotas menos conhecidas, revisitar trajetos clássicos com respeito, e preservar a dimensão íntima do encontro com a montanha.
Não é preciso ser um especialista para perceber que as grandes paredes ainda guardam rotas por explorar e que a história do alpinismo não foi toda consumida. Mas é legítimo perguntar: que tipo de mensagem cultural enviamos ao inserir o sprint nas Olimpíadas? A sensação é a de assistir a uma versão contemporânea dos Jogos sem Fronteiras, um espetáculo transnacional de velocidade e gincana, mais próximo da televisão do que do silêncio das cumeadas.
Portanto, que venha o esqui-alpinismo olímpico —mas com uma fórmula que preserve a natureza profunda da modalidade. Há espaço para inovação e para espetacularização sem, no entanto, desalojar a montanha do centro do discurso. O desafio para as federações e organizadores é encontrar um equilíbrio: inserir a disciplina no grande palco global sem esvaziar o seu significado. Caso contrário, corremos o risco de transformar práticas que são, antes de tudo, encontros com a natureza em meros exercícios de audiências.
Publicado em 20 de fevereiro de 2026






















