Por Otávio Marchesini — A preparação para as Olimpíadas em Cortina d’Ampezzo tem sido, nos últimos dois anos, uma sucessão de obras que transformaram a paisagem e a vida cotidiana das comunidades do Cadore e das valles vizinhas. O sentimento dominante entre moradores e proprietários de segundas residências oscilou entre a impaciência diante dos transtornos e a expectativa cautelosa quanto ao que ficará após os Jogos.
Os principais pontos de incômodo estavam ligados à mobilidade. Dois grandes túneis, conhecidos pela população como os túneis de Tai e de Valle, situados no eixo da estrada da Alemagna, provocaram atrasos e congestionamentos diários — mais intensos nos períodos de maior fluxo turístico. Em Cortina, o tráfego pesado de veículos de obra, combinado com intervenções para recuperar trechos de vias, resultou em fechamentos prolongados, como o da via Lungo Boite e do Largo delle Poste, fontes recorrentes de reclamação.
As críticas, no entanto, conviveram com um raciocínio mais amplo: as intervenções são parte de um projeto de modernização que promete deixar uma herança palpável. Com a reabertura ao trânsito dos túneis de Tai e Valle e a continuidade da execução da variante de San Vito — obra iniciada por ocasião dos Mundiais de 2021 e cuja conclusão é esperada até o verão —, a percepção local começa a mudar. Residentes e proprietários de segundas casas, que compõem a maior parte dos habitantes da região, reportam uma atitude mais prudente, que combina ceticismo e esperança.
Além das vias e das galerias rodoviárias, o projeto olímpico incorpora investimentos em saúde e equipamentos desportivos. Entre as promessas mais repetidas está a criação de uma cidadela do esporte e a renovação de serviços essenciais, incluindo um novo hospital que deverá atender a uma área geográfica mais ampla, beneficiando não só Cortina, mas também o alto Agordino e o Comelico.
O presidente local Saldini sintetizou esse balanço: “Vencemos muitas batalhas. O legado das Olimpíadas será a cidadela do esporte”. A frase resume a ambição institucional: transformar o ciclo de obras em ativos duradouros que sustentem turismo, formação esportiva e serviços públicos.
Do ponto de vista esportivo e de imagem, os sinais são claros. Bilhetes para competições como o biatlo, a serem realizadas em Anterselva (Antholz), e o salto de esqui em Predazzo estão próximos do esgotamento; hotéis reportam ocupação elevada. Casas olímpicas nacionais e espaços temáticos, como a Korea House, aumentam a visibilidade internacional de um território que, apesar dos transtornos temporários, volta a figurar no mapa do turismo de inverno de alta gama.
É inevitável remeter às lições da história regional. As Olimpíadas de 1956 deixaram marcas econômicas positivas, mas também desencadearam processos longos de mudança: crescimento do turismo, alterações no tecido social, êxodos e uma suave erosão de identidades culturais locais. Hoje, as novas gerações não guardam a memória direta das privações daquele período; percebem, apenas, o antes e o depois, com dúvidas sobre qual balanço prevalecerá.
O desafio contemporâneo é administrativo e simbólico. Administrar o pico de inconvenientes imediatos, garantir a conclusão técnica das obras — túneis, variantes de estradas, hospital e estruturas esportivas — e, ao mesmo tempo, preservar o patrimônio social e cultural, exigirá políticas públicas claras, diálogo constante com as comunidades e uma leitura crítica do que significa legado. Se bem gerida, a infraestrutura deixada pelas Olimpíadas poderá não só facilitar o acesso e melhorar serviços, mas também sustentar um modelo turístico e esportivo mais duradouro. Se mal conduzida, repetirá antigos erros: ganhos econômicos pontuais seguidos de transformações sociais ambíguas.
Ao observar Cortina hoje, não vejo apenas um canteiro; vejo um lugar em transição. A pergunta que permanece é histórica e política: que tipo de cidade e de montanha os habitantes e as autoridades decidirão construir quando as máquinas partirem?






















