Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Em uma partida que traduz mais do que um resultado isolado, Jakub Mensik derrotou Jannik Sinner por 7-6(3), 2-6, 6-3 e confirmou sua vaga nas semifinais do ATP 500 de Doha. O triunfo, conquistado em 2h12, projeta o jovem tcheco como força emergente e, ao mesmo tempo, evidencia limitações técnicas e momentos de fragilidade de um jogador que, nos últimos anos, vinha sendo tratado como referência do tênis italiano e europeu.
O revés de Sinner surpreende sobretudo pelo peso simbólico: os investimentos dos petrodólares do Qatar buscaram reunir os melhores do mundo e, na pista, a expectativa era por um confronto decisivo entre os top-2. Em vez disso, se Carlos Alcaraz avançar sobre Andrei Rublev, como sugerem as probabilidades, a final em Melbourne não se repetirá em Doha — e o nome de Sinner não estará entre os protagonistas.
O jogo reproduziu as contradições do italiano: serviço oscilante (perto de 61% de primeiras), erros em momentos críticos e incapacidade de converter chances nas quebras iniciais — Sinner teve quatro break points num mesmo game sem aproveitá-los. Parte desses deméritos, contudo, deve ser lida contra a excelência do adversário. Mensik, nascido em 2005, vem amadurecendo rapidamente: a temporada passada o projetou globalmente, segundo relatos, após a vitória no Masters 1000 de Miami contra Djokovic, e sua atuação em Doha só reforça que o jovem tem físico, alcance e agressividade para quebrar hierarquias pré-estabelecidas.
No primeiro set, a capacidade de Mensik de manter altíssima efetividade (83% de primeiras bolas em quadra contra 62% de Sinner) foi decisiva. O tiebreak refletiu esse domínio rápido: um revés cruzado preciso fechou em 7-3. Sinner reagiu no segundo set, sustentado por mais consistência no serviço e por momentos de tenacidade — inclusive salvando uma break point cedo — e venceu por 6-2, obrigando o duelo a um set de definição.
O desgaste físico e o inevitável balanço mental inclinaram a balança no terceiro set. Mensik manteve agressividade e mobilidade, castigando Sinner de todos os ângulos até consolidar a quebra que definiu o 6-3 final. Foram 2h12 de exigência atlética e tática: a leitura tática do tcheco, combinada com sua capacidade de tirar Sinner da zona de conforto, é um sinal claro de mudança geracional.
Nas consequências imediatas, Mensik encontrará nas semifinais o jovem francês Arthur Fils, enquanto a outra vaga será disputada entre Rublev e Alcaraz. Para Sinner, resta o acerto fino: elevar a taxa de primeiras bolas em quadra e reduzir erros em momentos de pressão. Mais amplamente, a eliminação é um lembrete de que os calendários exigentes e as novas fornadas de jogadores mudam narrativas com rapidez.
Como observador que privilegia estruturas sobre cliques, vale notar o que este resultado revela sobre o circuito moderno: a convergência entre investimento (estádios, premiações, marketing) e a imprevisibilidade da formação jovem. O esporte, aqui, segue sendo espelho de transformações — regionais, econômicas e culturais — e Doha, por sua vez, confirma que ser palco não garante roteiro.






















