Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite de frio cortante em Bialystok, a Fiorentina ofereceu uma resposta clara às incertezas que rondavam sua temporada: 3 a 0 sobre o Jagiellonia na estreia europeia, num jogo que disse mais sobre cabeça e gestão do que apenas sobre técnica. A vitória, construída com gols de Ranieri, Mandragora e Piccoli, tem o valor adicional de ser obtida em um contexto em que a equipe poupou titulares e fez voltar à cena jogadores em busca de recuperação.
A presença europeia, mesmo quando se trata da Conference, carregava um peso simbólico. Para um elenco que convive com as pressões de uma série A turbulenta e ocupa zona de risco a 13 rodadas do fim, a Europa é ao mesmo tempo alívio e tensão. A Federazione e a torcida sabem que cada competição é um palco de imagem e recursos; a gestão do elenco é, portanto, um exercício de prioridades.
Com cinco titulares ausentes e nove nomes da Primavera no banco, a leitura pré-jogo estava lançada: testar profundidade e avaliar reações. Do outro lado, o Jagiellonia também vinha carente de referências — em especial o capitão Romanczuk e o artilheiro Pululu, ambos fora por suspensão —, o que nivelou o duelo para uma disputa menos previsível.
O primeiro tempo, jogado em um gramado longe da perfeição do Municipal de Bialystok, foi de iniciativa local: 70% de posse nos primeiros 20 minutos e tentativas de construir desde trás, sem, contudo, criar perigo real. A Fiorentina mostrou organização defensiva, mas pouca presença ofensiva até os minutos finais da etapa inicial, quando Fabbian teve duas oportunidades — a segunda repelida com elasticidade por Abramovicz.
Na volta do intervalo, a equipe dirigida por Vanoli entrou mais agressiva. Aos 53 minutos, Ranieri cabeceou livre para abrir o placar, aproveitando uma falha do goleiro Siemieniec. O gol teve efeito imediato: mudou o ímpeto da partida e deu margem para que a Fiorentina explorasse o espaço e a confiança recém-conquistada.
O jogo teve momentos de equilíbrio, com um poste em cobrança de falta de Wdowik, até que, aos 66, Mandragora — exímio em bolas paradas — desenhou a cobrança perfeita em posição de falta e ampliou. A estatística pessoal não é irrelevante: foram 51 presenças do meia com a camisa violeta em competições europeias do tipo Conference, sinal de como o jogador ocupa papel de experiência num elenco em reformulação.
Com a vantagem consolidada, a Fiorentina administrou. Aos 81 minutos, um pênalti convertido por Piccoli fechou a conta em 3 a 0. Mais do que o resultado, importa a forma: um time que soube isolar-se da turbulência do campeonato nacional por 90 minutos e responder com maturidade, trocando minutos para os protagonistas e oferecendo espaço para quem busca reavivar a carreira dentro do elenco.
Para além dos três pontos, a leitura que fica é institucional e humana. O clube mostrou capacidade de atravessar um compromisso europeu com pragmatismo — sem exageros, sem desperdícios — e com uma mensagem clara ao vestiário: a competição continental pode ser terreno de recuperação física e moral. Nas próximas semanas, a atenção volta à Serie A; mas esta noite gelada na Polônia serviu para lembrar que o futebol é também um exercício de gestão de recursos simbólicos e reais.





















