Em uma noite que reconfigura símbolos e memórias do patinação artística olímpico, Alysa Liu, de 20 anos, subiu ao lugar mais alto do pódio em Milano-Cortina 2026, devolvendo aos Estados Unidos um ouro que não surgia no evento feminino desde Torino 2006. Sua apresentação — precisa, musical e tecnicamente sólida — valeu 226,79 pontos, recorde pessoal em Olimpíadas e tradução numérica de uma maturidade competitiva construída entre recuos e retornos.
O triunfo de Alysa Liu (226,79) deixou atrás de si as japonesas Kaori Sakamoto e Ami Nakai, respectivamente medalha de prata e bronze, separadas por 1,89 e 7,63 pontos. Foi uma vitória que tem camadas: pessoal, esportiva e simbólica. Pessoal, porque trata-se do retorno de uma ex–prodigiosa que enfrentou pressão e ansiedade e soube, aos 20 anos, reencontrar o estado de graça sobre o gelo; esportiva, porque materializa uma estratégia técnica baseada em sete triplo executados com rigor; simbólica, porque interrompe uma sequência de hegemonia russa que durava do alto da polêmica — e da eficácia — desde Sochi 2014.
Para compreender o alcance histórico: a Rússia acumulava, no feminino, títulos e controvérsias — de Sotnikova em Sochi 2014 a Zagitova em Pyeongchang 2018 e às complexas leituras sobre Valieva em Pequim 2022. O ouro de Alysa Liu não é apenas um resultado; é um momento de reposicionamento geopolítico simbólico do esporte, onde nacionalidades, escolas técnicas e narrativas pessoais se cruzam dentro de uma arena que é também palco de memórias coletivas.
Na pista, Liu construiu sua rotina ao som de Donna Summer com uma exatidão que impôs aos rivais a necessidade de respostas perfeitas. A performance da jovem norte-americana contrastou com a tentativa frustrada de Adeliia Petrosian, levada a Milano sob a tutela indireta de Eteri Tutberidze. Petrosian, marcada por um duplo-toeloop ambicioso que foi considerado under-rotated, vê-se afastada da disputa por medalhas, num enredo que remete às pressões da escola russa contemporânea.
Também chamou atenção o destino de Ilia Malinin, grande favorito ao ouro individual masculino após exibições de grande fôlego e peça-chave no título norte-americano por equipes: acabou apenas na oitava colocação — lembrança de que as transições entre expectativas e realizações são frágeis, mesmo para atletas jovens e tecnicamente brilhantes.
O ambiente no Milano Ice Skating Arena foi de lotação e tensão. Entre os espectadores, figuras que traduzem o entrelaçamento cultural entre esporte e celebridade — como a russa Maria Sharapova, perfeitamente integrada ao cenário norte-americano — observavam o desenrolar de uma final que redireciona estatísticas e histórias.
Mais do que resultado, o ouro de Alysa Liu é um ponto de inflexão: requalifica a tradição norte-americana na patinação feminina, apaga um longo jejum olímpico e confirma que, no patinódromo, o equilíbrio entre arte e técnica continua a ditar quem poderá escrever o próximo capítulo da memória olímpica.
Resumo técnico: Alysa Liu — ouro (226,79 PB), Kaori Sakamoto — prata, Ami Nakai — bronze. Rússia fora do pódio feminino após 12 anos. Ilia Malinin, 8º no individual; Shaidorov e demais protagonistas redesenham o mapa competitivo do gelo.






















