Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O Comitê Paralímpico Nacional da Ucrânia anunciou oficialmente que seus atletas não participarão da cerimônia de abertura dos XIV Jogos Paralímpicos de Milão-Cortina, marcada para 6 de março de 2026. A decisão é uma resposta direta à medida do Comitê Paralímpico Internacional (IPC) que permitiu a participação de esportistas da Rússia e da Bielorrússia com sua própria bandeira e hino.
Em comunicado divulgado na noite de quinta-feira, o Comitê ucraniano deixa claro o caráter simbólico do gesto: um boicote à cerimônia de abertura que, segundo a delegação, não pode conviver com a presença de um emblema “manchado pelo sangue ucraniano” no palco dos Jogos. O pedido inclui ainda que a bandeira ucraniana não seja utilizada durante a cerimônia, posição que visa evitar que símbolos de sofrimento nacional sejam apresentados em conjunto com aqueles que, para a Ucrânia, representam o agressor.
A reação ucraniana também já encontrou adesões internacionais: no dia seguinte ao anúncio, a República Tcheca declarou apoio ao boicote. A tensão é tanto esportiva quanto política e cultural, pois toca a essência do que os Jogos — e em especial o movimento paralímpico — dizem pretender representar: inclusão, paz e solidariedade.
Valerij Suszkewycz, presidente do Comitê Paralímpico ucraniano, declarou em entrevista à agência AFP que o IPC, com sua recente decisão, alterou seu posicionamento e se distanciou dos valores que historicamente justificaram a exclusão de atletas russos e bielorrussos em edições anteriores, notadamente em Pequim 2022. Naquele momento, a exclusão foi vista como um gesto de apoio à Ucrânia; agora, na avaliação de Suszkewycz, a reversão foi incompreensível e contraditória com a filosofia do movimento paralímpico.
Os números comunicados também traduzem o impacto prático: foram admitidos seis atletas russos e quatro bielorrussos por wildcards; a delegação ucraniana deslocar-se-á à Itália com 36 atletas, 22 treinadores e demais acompanhadores. Depois do segundo lugar no quadro de medalhas em 2022, as expectativas esportivas da Ucrânia estão agora mais contidas. Suszkewycz ressalta que a preparação ocorreu em circunstâncias dramáticas — muitos treinos sob bombardeios, infraestrutura comprometida e recursos financeiros reduzidos em mais de 50%. Ele próprio tem trabalhado desde o exterior por obrigatoriedade.
Este episódio projeta uma discussão mais ampla sobre o papel das instituições esportivas globais diante de conflitos armados: que equilíbrio entre a separação entre esportes e política e a responsabilidade moral que disciplinas e federações exercem enquanto atores sociais? Para a delegação ucraniana, o esporte é inseparável da memória coletiva e do respeito às vítimas — uma posição que transforma um gesto protocolar, como entrar numa cerimônia, em ato político e ético.
Artigo em atualização. 20 de fevereiro de 2026.
Otávio Marchesini — repórter de Esportes, Espresso Italia






















