Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Na véspera de uma edição dos Jogos que promete ser marcada pela visibilidade internacional e pela pressão competitiva, o Comitê Olímpico Milano Cortina 2026 decidiu reconhecer formalmente uma necessidade humana muitas vezes negligenciada nas coberturas esportivas: a dimensão espiritual dos atletas. Foram montadas seis salas de prece nos vilarejos olímpicos das sedes dos Jogos de Inverno, incluindo Cortina, concebidas como espaços neutros, silenciosos e acessíveis 24 horas por dia.
A campeã e dupla medalhista de ouro, Federica Brignone, já havia lembrado que, além da preparação física e da alimentação — italiana, no caso —, os atletas necessitam de concentração e de silêncio. As novas salas respondem a essa necessidade oferecendo “um refúgio” limpo, iluminado e desprovido de simbologias religiosas identificáveis: não há imagens sacras, nem livros litúrgicos; a arquitetura e o mobiliário privilegiam tapetes e assentos que permitem diferentes posturas de culto ou recolhimento individual.
Em termos de projeto social e intercultural, a iniciativa foi acompanhada e descrita pela professora Giuseppina Sala, docente nas universidades de Pádua e Bocconi e membro do observatório DiReSom, que trabalha na proteção de espaços multi‑religiosos em contextos internacionais. Sala sublinha que não se trata de espaços “inter‑religiosos” no sentido de fusão de ritos, mas de locais “multi‑religiosos”: sem divisórias internas, pensados para que cada atleta encontre a posição e o ambiente adequados à sua prática espiritual.
Do ponto de vista prático, as salas multiculto estão disponíveis 24 horas e há a possibilidade de acionar um ministro de culto quando necessário, garantindo um suporte ritualizado sem impôr qualquer simbologia dominante. Esse arranjo foi projetado com duas frentes em vista: o respeito à pluralidade de crenças presentes num evento global e a mitigação das tensões psicológicas que decorrem de competições de alto rendimento.
Complementar a essas salas, os vilarejos incluem espaços denominados MindZone, destinados ao apoio psicológico e ao recolhimento não necessariamente religioso. Reconhecer a dimensão mental e espiritual não é um gesto meramente simbólico; é uma tomada de responsabilidade sobre o bem‑estar multidimensional dos atletas, que enfrentam pressões extraordinárias durante os dias de prova.
Historicamente, eventos esportivos internacionais sempre tiveram pontos de encontro para a fé — capelas, salas de oração, ou chapas comunitárias — mas a configuração proposta para Milano Cortina 2026 soa como um movimento consciente para a convivência plural: neutralidade arquitetônica, abertura horária e integração de suporte psicológico traduzem uma visão contemporânea do esporte como um fenômeno que ultrapassa o campo de competição e entra no terreno dos direitos humanos e da dignidade individual.
Em suma, as seis salas de prece em Cortina e nas demais sedes representam, mais do que um conforto, um reconhecimento institucional de que atletas são pessoas inseridas em mundos espirituais e afetivos diversos — e que a organização de um grande evento esportivo tem a obrigação de criar condições para que essa pluralidade seja respeitada.





















