Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um movimento que combina ambição pessoal e simbolismo coletivo, Cristiana Girelli se despede — ao menos por enquanto — da Juventus para aceitar um empréstimo ao Bay FC, franquia da NWSL dos Estados Unidos. A oficialização do acerto confirma a transição de uma das referências do futebol feminino italiano rumo a uma liga que, nos últimos anos, tem atraído talentos globais e oferecido uma experiência competitiva distinta da realidade europeia.
Aos olhos do clube e da torcida, trata-se da interrupção de uma era: depois de sete temporadas e meia sob a camisa bianconera, Girelli deixa um legado numérico e simbólico — 241 partidas e 150 gols, com o último tento anotado em 1º de fevereiro contra o Sassuolo. Curiosamente, essa mesma partida também a consagrou como a jogadora com mais aparições na história da Juventus feminina.
O adeus foi vivido em clima de emoção no Allianz Stadium, após a eliminação da equipe italiana nas oitavas da UEFA Women’s Champions League. O Wolfsburg, que havia empatado por 2-2 na Alemanha, venceu por 2-0 em Turim e selou a eliminação. Nos minutos finais, Cristiana Girelli acenou para os torcedores com os olhos marejados — imagem que ficou marcada, inclusive, pela presença de Alex Del Piero nas arquibancadas. A companheira Barbara Bonansea chegou a dirigir-se às câmeras com um lacônico e significativo “le auguro il meglio”.
Não são poucas as nuances deste episódio. O timing — com a Juventus seis pontos atrás da liderança, ocupada pela Roma, e com uma semifinal de Coppa Italia contra a Fiorentina marcada para março — acentua o peso esportivo da saída. Ainda assim, é preciso avaliar a trajetória de Girelli com proporcionalidade histórica: sob a sua contribuição, a Juventus conquistou cinco scudetti, quatro Coppe Italia, cinco Supercoppe italiane e, em setembro passado, o título da Serie A Women’s Cup. Tais troféus desenham não apenas a carreira de uma jogadora, mas um capítulo da afirmação do clube no panorama feminino italiano.
O desejo de experimentar o futebol estrangeiro não é novidade: já em dezembro, às vésperas de um amistoso da seleção italiana contra os Estados Unidos, Girelli confessou publicamente a vontade de jogar fora da Itália antes de encerrar a carreira. A ida para a NWSL segue um movimento já observado entre as italianas — suas ex-companheiras Sofia Cantore e Lisa Boattin foram, respectivamente, ao Washington Spirit e ao Houston Dash, e a romanista Lucia Di Guglielmo também reforçou o Washington Spirit. A tendência aponta para um intercâmbio que além de esportivo tem dimensões formativas e identitárias: atletas italianas absorvendo estilos, estruturas e visibilidades diferentes.
Para a Juventus, a saída representa um desafio de curto prazo: recolocar recursos humanos e táticos em um momento decisivo da temporada. Para Girelli, trata-se de uma busca por atualização pessoal e por um novo capítulo num currículo já riquíssimo. Observador atento das tramas que ligam futebol e sociedade, não é apenas o número de gols que importa, mas o significado desta escolha — o gesto de uma capitã que parte em busca de experiência, enquanto deixa para trás uma memória coletiva e uma coleção de títulos que consolidaram a sua imagem no imaginário bianconero.
Em resumo: Cristiana Girelli chega ao Bay FC como quarta italiana na NWSL, com a missão pessoal de aprofundar sua carreira fora da Itália e o desafio de manter a forma e a relevância que sustentaram suas 241 partidas e 150 gols pela Juventus. A história, contudo, segue — e o futebol observa, mais uma vez, as conexões entre escolhas individuais e transformação institucional.






















