Por Otávio Marchesini — Em um jogo que é ao mesmo tempo espetáculo e construção de identidade, a trajetória de Dj Steward, 24 anos, descreve a mobilidade contemporânea do atleta: da cidade que o formou aos circuitos profissionais europeus, com desvios por música e ambição empreendedora. Uma retrospetiva publicada em MyAquila, seção do site do Aquila Basket, desenha esse mapa íntimo e profissional do exterior americano que agora veste Trento.
O relato começa pelas raízes: nas ruas de Chicago o primeiro amor não foi o basquete, mas o football. A família — com um irmão mais velho já na quadra — observou e orientou, até que a escola e o college redesenhassem o destino. Em Duke, Steward encontrou Mike Krzyzewski — o Coach K — e uma formação em detalhes: “Ele ensina a ser profissional antes mesmo de você se tornar um. Ter jogado com ele é algo que contarei aos meus filhos”, confessa o jogador.
O caminho até a NBA foi tangente: convocações, testes, e a experiência singular de integrar um elenco que representa sua cidade natal — os lendários Chicago Bulls. “Esperava aquela chamada há anos; dizer que estive no roster dos Bulls é algo que não esquecerei”, recorda Steward. A ironia simbólica foi receber o armário usado por Michael Jordan, um objeto que carrega memória e expectativa, atravessando gerações e significados.
A decisão de aceitar a proposta de Trento marcou a primeira grande saída dos Estados Unidos. “Tive medo — admite — pela distância, pelas oito, nove horas de voo. Mas esta cidade me aceitou pelo que sou. Trento é especial. Estou aprendendo os detalhes do basquete europeu. No começo não foi fácil, mas agora estou conseguindo e me sinto livre para ser eu mesmo.”
Steward não é apenas atleta: é um jovem que busca narrativas múltiplas. No ano passado lançou seu primeiro álbum de hip-hop, intitulado Euro Stepping, sob o nome artístico Stewskii. O trajeto da música começou como diversão — gravações com telefone e fones entre amigos — e converteu-se em prática e disciplina: “Como no basquete, o trabalho melhora você. Usei a música para contar algo sobre mim”, diz ele, que sonha também em criar uma marca de moda própria.
No conjunto, a história de Dj Steward fala de formação e reinvenção. O armário de Jordan é um fragmento de um patrimônio simbólico que o jogador carrega, enquanto o disco e o projeto de moda denunciam uma vontade de fixar uma identidade além da quadra. Em Trento, essa síntese cultural — entre o passado de Chicago e a nova vida europeia — cresce em público e significado.
MyAquila oferece esse e outros conteúdos exclusivos a assinantes gratuitos, propondo ao torcedor não só estatísticas, mas retratos que explicam o que o atleta representa para uma cidade e uma comunidade. No caso de Steward, a narrativa é dupla: um atleta em formação técnica e um jovem artista-empreendedor em processo de construção de marca e memória.
Enquanto aprende os mecanismos táticos do basquete continental, Steward cultiva um repertório pessoal que mistura relíquias (a camisa e o armário dos Bulls), discursos (a escola de Coach K) e projetos futuros (o rap e a moda). É uma história que traduz, em microescala, como o esporte moderno se entrelaça a trajetórias culturais, econômicas e identitárias — e como cidades como Trento viram palco para essas complexas conversas.


















