Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma decisão que marca passagem e simbolismo, Cristiana Girelli, a atacante de Nuvolera que se consolidou como referência do futebol feminino italiano, parte pela primeira vez do campeonato nacional para tentar um novo capítulo nos Estados Unidos. A jogadora, hoje com 35 anos — fará 36 em breve —, aceitou a proposta de empréstimo do Bay FC, equipe californiana que disputa a NWSL, considerada o campeonato mais competitivo do futebol feminino mundial.
O movimento concretiza um percurso construído ao longo de anos em que Girelli venceu dez títulos de Scudetto, incluindo duas conquistas defendendo as cores do Brescia, e que mais recentemente a colocou entre as principais referências ofensivas da Juventus, clube pelo qual atua desde 2018. A saída em caráter temporário foi acordada entre as partes para permitir que a atleta dispute a temporada americana, cujo calendário será compatível com a próxima janela de convocações da seleção italiana.
O anúncio teve um viés emotivo: na quinta-feira, após a partida pela Liga dos Campeões contra o Wolfsburg, que terminou de forma amarga para a Juventus, Cristiana Girelli recebeu o calor do público no Allianz Stadium. Entre os espectadores, a presença simbólica de Alessandro Del Piero — ídolo histórico do clube e figura de importância cultural para o futebol italiano — adicionou significado ao adeus provisório.
Do ponto de vista desportivo, a transferência tem implicações claras. A NWSL representa um ecossistema em que o futebol feminino é sustentado por maior massa crítica, infraestrutura e exposição comercial, fatores que historicamente fomentaram performances coletivas e individuais de alto nível nos Estados Unidos. Para Girelli, trata-se de um teste tardio, mas ambicioso, numa liga cuja intensidade e visibilidade podem ampliar seu legado.
No plano individual, a atacante vem de uma temporada notável: em 2025 anotou 26 gols, estatística que a colocou no centro do debate sobre premiações individuais, incluindo o Ballon d’Or. Internacionalmente, permanece envolvida no projeto da seleção italiana, que visa a qualificação para o Mundial 2027, compromisso que, segundo fontes do clube e da atleta, não será prejudicado pelo empréstimo — ao contrário: a experiência nos EUA pode fortalecer seu rendimento com a Azzurre.
Politicamente e culturalmente, a transferência de Cristiana Girelli diz muito sobre o estágio atual do futebol feminino europeu: a saída de jogadoras veteranas para os Estados Unidos reflete tanto a atração por um mercado mais maduro quanto a necessidade de as ligas europeias aprofundarem estruturas profissionais e de mercado. Para a Itália, é também uma perda — ainda que temporária — de uma figura que encarna parte da trajetória recente da modalidade no país.
O empréstimo ao Bay FC abre, assim, uma janela de leitura que ultrapassa o objetivo imediato de gols e resultados: é uma escolha que interroga carreira, visibilidade e funções simbólicas. Resta acompanhar como a experiência norte-americana se somará ao acervo esportivo e identitário de uma das maiores strikers da história do futebol feminino italiano.






















