Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — As forças de segurança e os serviços de emergência emitiram alerta elevado para risco de avalanches na região do esqui, sobretudo nas zonas que receberam as últimas provas das Olimpíadas em Cortina. As precipitações de quinta-feira, 19 de fevereiro, renovaram o manto e alteraram rapidamente o cenário de estabilidade que já vinha sendo monitorado.
Dados de campo mostram que, até níveis relativamente baixos, houve acumulação relevante: em Agordo, a 611 metros de altitude, registraram-se 28 centímetros de neve fresca. Em cotas superiores os valores foram maiores, com depósitos entre 30 e 40 centímetros e episódios pontuais de até 60 centímetros em poucas horas.
O complicador principal não foi apenas a quantidade, mas o agente que remodelou essa massa: o vento forte redistribuiu a neve, formando lastroni e acumulados de neve vento além do limite do bosque. Esse novo manto assentou-se sobre uma base já comprometida por uma estratificação interna frágil, com camadas inferiores de baixa coesão. A combinação entre neve fresca, lastrões e fragilidades pré-existentes elevou de maneira significativa a instabilidade do território.
Ao longo de sexta e sábado, dependendo das exposições e dos corredores, o nível de perigo oscilou entre o grau «marcado» e o grau «forte» — este último configurando o nível máximo de atenção. As autoridades locais recomendam extremo cuidado na escolha dos itinerários e reforçam a necessidade de portar dispositivos de auto-socorro (ARVA, pá, sonda) e de saber usá-los corretamente.
O prognóstico meteorológico para o fim de semana indica vento persistente e chuvas/nevadas fracas nas cristas de divisa já no sábado à noite. A partir de domingo as temperaturas deverão subir de modo sensível, o que pode reduzir a abrangência da instabilidade, mas manter pontos críticos, sobretudo nas encostas em sombra, onde permanecem camadas frágeis em profundidade. O vento seguirá propenso a formar novos depósitos e cornijas em todas as exposições — elementos que alteram rapidamente a avaliação de campo e exigem prudência acrescida.
Em áreas antropizadas, locais tradicionalmente expostos ao risco, inclusive vias em altitude, podem ser afetados de modo localizado; por isso, medidas preventivas e eventuais restrições de tráfego ou acessos devem ser consideradas pelas administrações locais. Para quem frequenta a montanha, as condições atuais exigem elevado nível de experiência técnica para selecionar percursos e avaliar a estabilidade do manto, sobretudo além do limite do bosque, onde a ação do vento muda os equilíbrios em questão de horas.
Na própria área olímpica de Cortina, o acúmulo de 30–40 centímetros foi suficiente para acionar o plano de controle de avalanches, que contempla tanto intervenções técnicas de estabilização quanto fechamentos preventivos de trechos de pista e acessos. Essa ação prática, comum em cenários de grande visibilidade pública como os Jogos, reflete uma lição recorrente: as montanhas, mesmo quando preparadas para eventos de alto nível, continuam a ser ambientes naturais cuja imprevisibilidade exige respeito e gestão contínua.
Do ponto de vista social e administrativo, o episódio volta a sublinhar a importância de sistemas integrados de monitoramento, comunicação rápida entre órgãos e formação dos frequentadores para reduzir riscos. A montanha é palco de referências coletivas — tradição esportiva, memória local, turismo — e, quando a natureza redefine seus parâmetros, impõe-se uma resposta que combine ciência, logística e responsabilidade cívica.
Recomenda-se aos leitores consultarem as atualizações oficiais das polícias locais e dos serviços nivológicos antes de qualquer deslocamento em altitude.






















