Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Nas primeiras horas dos Jogos de Milano‑Cortina a experiência coletiva foi desigual nas áreas externas da província autônoma de Bolzano. As fan zones montadas em Brunico, Dobbiaco e Bolzano registraram presença reduzida — em parte conseqüência do clima adverso, com frio e neve, e em parte pela coincidência com a semana de carnaval, que alterou a rotina turística local.
Para quem não conseguiu acompanhar as competições ao vivo nos estádios, as chamadas “Off Venue Experience” prometiam reproduzir o ambiente olímpico por meio de maxitelas e áreas de convívio. Na prática, porém, os espaços ao ar livre pouco atraíram o público: em dias de céu encoberto e vento, os espectadores que se aproximavam do maxischermo eram grupos esparsos, majoritariamente turistas, que permaneciam apenas alguns minutos para assistir a trechos das transmissões.
O contraste ficou evidente em Brunico, onde o verdadeiro núcleo de atração foi o grande pavilhão fechado instalado como Fan Village. Lá dentro, o calor humano e a ocupação dos espaços tornaram mais palpável a dimensão social dos Jogos. O restaurante em estrutura de madeira registrou cerca de 80% de lotação nos momentos de pico, com muitos visitantes — sobretudo turistas alemães — acompanhando a programação nos três telões sintonizados na emissora de seu país, que pouco antes transmitira a vitória da seleção germânica de hóquei por 5-1 sobre a França.
Aos olhos de anfitriões e organizadores, o balanço é misto. «Estamos satisfeitos de como o público, especialmente nossos hóspedes no vale, está respondendo à iniciativa do Fan Village Milano‑Cortina de Brunico. O bar e o restaurante estão sempre bem ocupados, e isso é positivo também para as associações de voluntariado que assumiram o serviço», declarou Martin Huber, presidente da Associação Turística Brunico Plan de Corones, responsável pela organização do espaço.
Do lado de fora, a plateia tímida aplaudia diante das telas; dentro, o calor de um restaurante lotado lembrava que a experiência olímpica, mais do que somar corpos em torno de um telão, se inscreve na cadeia de serviços e na economia local: bares, restaurantes e o trabalho voluntário transformam a estranheza do evento em rotina comunitária.
A transmissão da prova de biathlon em Anterselva — com a tradicional staffetta que mobiliza interesse regional — funcionou como catalisador momentâneo. Ainda assim, o efeito pleno das fan zones ficou atenuado pelo tempo e pelo calendário social. O episódio é sintomático: os Jogos não acontecem apenas nas pistas, mas nas praças e nos espaços de convivência; quando estes enfrentam condições externas difíceis, a força do espetáculo migra para ambientes cobertos, restaurantes e aos lares.
Em suma, a imagem que fica é dupla: por um lado, a evidência de que o clima e o itinerário turístico podem contornar a experiência pública projetada pelos organizadores; por outro, a confirmação de que a hospitalidade local — com seus bares, restaurantes e voluntários — continua sendo o núcleo que sustenta a vivência olímpica fora dos estádios.
Espresso Italia acompanha as próximas jornadas em Alto Ádige para avaliar se as fan zones conseguirão reconquistar a vivacidade esperada ou se o movimento permanecerá circunscrito aos espaços cobertos e aos circuitos de turismo já consolidados.
Otávio Marchesini é repórter de Esportes da Espresso Italia, especializado em análise histórica e sociocultural do esporte na Itália e na Europa.






















