Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Fechar os Jogos Olímpicos na pedra viva de um anfiteatro romano não é apenas um gesto cenográfico: é uma declaração sobre memória, patrimônio e a capacidade do esporte de falar para além do evento. No dia 22 de fevereiro, a Arena di Verona será o cenário da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno — a primeira da história realizada dentro de um monumento reconhecido pela UNESCO.
O projeto criativo ficou a cargo de Alfredo Accatino, presidente e chief creative officer da Filmmaster, que também assinará a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos, marcada para o 6 de março. Enquanto Marco Balich conduzirá a abertura em Milão, a tarefa de imaginar o ato final coube a Accatino, que traz na trajetória parcerias históricas com Balich — ambos trabalharam em Torino 2006 e já estiveram envolvidos em Salt Lake City 2002.
O título artístico do espetáculo é Beauty in Action, uma proposição que pretende deslocar a contemplação da beleza para o campo do gesto e do movimento. «Viver dentro da história é uma força, mas pode virar limite se permanecer estático», disse Accatino. A opção estética busca por isso aliar a tradição lírica italiana a uma linguagem cénica contemporânea, instalada no corpo do monumento.
A transformação da arena em espaço cénico não seguirá a fórmula habitual do palco frontal. Em vez disso, a Arena di Verona será pensada como uma grande praça central, com o público disposto em volta, favorecendo uma relação mais íntima e democrática entre espectadores e cena. Haverá um arranque surpreendente que envolverá também a Piazza Bra e o Teatro Filarmonico. No centro, uma estrutura evocará a forma de uma gota d’água que cai e produz círculos concêntricos — metáfora física das linhas do anfiteatro e do efeito expansivo da cultura.
Os números confirmam a ambição do projeto: cerca de 250 artistas em cena para a cerimônia de encerramento, dos quais aproximadamente 150 músicos e coristas vinculados à Fundação Arena. Ao lado de elencos institucionais, nomes do entretenimento contemporâneo preencherão o palco, como o cantor Achille Lauro, o DJ Gabry Ponte, o bailarino Roberto Bolle — étoile do Teatro alla Scala — e a atriz Benedetta Porcaroli.
Além do espetáculo em si, Accatino sublinha uma dimensão urbana e legado: a experiência dos Jogos pode insuflar uma nova energia à cidade. «Verona tem um potencial enorme: seria bom continuar a imaginar eventos também depois dos Jogos», afirmou. A leitura é coerente com uma visão que enxerga cerimônias olímpicas como catalisadores de política cultural e reconstrução simbólica das cidades-sede.
Em termos de produção, a Filmmaster coordena a operação artística e logística. A escolha de um monumento UNESCO para encerrar os Jogos impõe desafios técnicos e simbólicos, mas também oferece uma oportunidade rara: falar ao mundo a partir de um lugar onde o tempo parece literalmente depositado na pedra.
O resultado, prometem os autores, será um espetáculo que não apenas celebra o fim dos Jogos, mas reativa memórias — e antecipa, com cautela e ambição, a possibilidade de uma Verona que se reposiciona no mapa cultural europeu.






















