Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Chega às salas no fim de março de 2026 Igor. L’eroe romantico del calcio, um documentário que busca resgatar, em imagens e depoimentos, a figura singular de Igor Protti — atacante riminense que se tornou símbolo de um futebol de identidade e afetos, antes da consolidação da era mercantil e da globalização irrestrita do esporte.
Dirigido por Luca Dal Canto e assinado no roteiro por Dal Canto, Alberto Battocchi e Anita Galvano, o filme, produzido e distribuído por PianoB distribuzioni, propõe mais do que uma crônica de gols: é uma tentativa de mapear culturalmente um tempo em que o futebol se articulava com territórios, memórias e práticas sociais — o que na Itália se costuma chamar de futebol das bandiere.
O documentário remete ao período em que estádios lotados aos domingos, figurinhas trocadas às escondidas sob a carteira e craques ‘sujos de barro’ alimentavam sonhos de crianças e adultos. É desse futebol visceral e humano, que deu origem a mitologias locais, que nasce a leitura proposta pelo filme: Protti, mais do que um artilheiro, aparece como um dos últimos heróis românticos daquele ciclo.
Nascido em Rimini, Igor Protti viveu carreira de caráter provincial e, ao mesmo tempo, nacional. Foi artilheiro da Serie A com a camisa do Bari em 1995‑96 — temporada em que, ironicamente, o clube acabou rebaixado — e brilhou por times como Rimini, Virescit Bergamo, Lazio, Messina, Napoli e Livorno. Hoje, acometido por uma doença que restringe suas aparições públicas, Protti é retratado com respeito e cuidado pelo filme: a ausência que seu corpo impõe é contrabalançada pelas vozes que o recuperam através da lembrança.
O elenco de testemunhos reúne nomes que conviveram com o atacante ou acompanharam aquele futebol: Giuseppe Signori, Fabio Galante, Sandro Tovalieri, Walter Mazzarri, Cristiano Lucarelli e Giorgio Chiellini, além de jornalistas e sociólogos que ajudam a enquadrar historicamente a experiência daquele tempo. A montagem combina depoimentos contemporâneos com riquíssimo arquivo de imagens, criando uma narrativa que é ao mesmo tempo biográfica e coletiva.
Como analista, vejo em Igor. L’eroe romantico del calcio uma leitura sobre o apagamento de formas de pertença no futebol moderno. Protti encarna uma síntese: homem de cidade média, com trajetórias por clubes menores e grandes palco, cuja carreira ilumina tensões entre profissionalização, mobilidade e permanência local. O documentário não romantiza sem critério; antes, oferece ferramentas para que se entenda o que se perdeu — e o que ficou.
Para o público italiano e os observadores europeus do jogo, a obra promete ser um roteiro de memórias, afectos e interrogantes: como se reconcilia a saudade de um futebol identitário com as exigências do presente? O filme não responde por completo, mas nos devolve a figura de Igor Protti como ponto de partida para a reflexão.
Estreia prevista: final de março de 2026. Vale ver para recordar e para discutir, com olhar crítico, a transformação social que o futebol reflete.





















