Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A inclusão do sci alpinismo no programa olímpico transformou, por alguns dias, a pista Stelvio de Bormio em uma vitrine do que a montanha produz de mais autêntico: técnica, resistência e uma relação profunda entre atleta e território. Em meio a uma nevasca que devolveu ao cenário a aparência da alta montanha, a estreia olímpica da modalidade chamou atenção não apenas pelo espetáculo, mas pelo seu significado social e cultural: um esporte de comunidade, agora exposto ao grande público.
Entre os protagonistas dessa história está o casal italiano formado por Alba De Silvestro e Michele Boscacci. Alba, nascida em 1995 e criada em Padola di Comelico (Belluno), e Michele, originário de Sondrio, representam duas linhagens históricas do esqui alpino italiano — não apenas em termos de sangue e geografia, mas como vetores de memória esportiva regional que chegam, enfim, à cena internacional mais ampla.
Na pista Stelvio, adaptada para o formato com subidas rápidas, degraus e um trecho entre portas largas que privilegiou um espetáculo ágil para a televisão, a vitória individual ficou com a suíça Marianne Fatton. Para o casal italiano, porém, o fim de semana foi de frustrações e de expectativa ao mesmo tempo: Michele foi eliminado precocemente na prova masculina, enquanto Alba não avançou além da semifinal feminino, onde terminou em quarto lugar.
Alba descreveu as dificuldades que enfrentou após a prova: a nevasca alterou as condições de pele e base dos esquis — “gestire le pelli era difficile” — e o percurso ficou escorregadio. Em suas próprias palavras, faltou-lhe o “giro in più”, aquele ponto de sintonia com a pista que separa uma boa apresentação de uma classificação tranquila. Ainda assim, destacou o efeito positivo da atmosfera olímpica: “A atmosfera olímpica é bellissima e aiuta il nostro sport”, disse, lamentando apenas não ter conseguido fazer o público sonhar até o fim.
Michele, por sua vez, definiu sua prova como “troppo veloce e nervosa”. Apesar de não ter alcançado as semifinais, evidenciou satisfação pelo significado maior do momento: o debuto olímpico do sci alpinismo. Para ambos, o foco passou a ser a staffetta mista de sábado, prova que, por seu comprimento e ritmo, parece mais alinhada ao perfil de resistência e tática que os dois cultivam.
Em termos esportivos, a jornada do casal reflete pontos cruciais do processo de profissionalização de modalidades de montanha: infraestrutura para competição em alta montanha, gestão técnica de materiais (como peles), preparo para condições extremas e, sobretudo, a necessidade de construir uma narrativa que conecte as raízes locais à audiência nacional e global. Alba e Michele, vivendo entre Sondrio e a tradição do Cadore, personificam essa ponte entre o microcosmo alpino e a cena olímpica.
As expectativas para a staffetta mista são concretas. Ambos manifestaram a intenção de “azzerare” as performances do dia anterior, recuperar-se fisicamente e jogar suas cartas em uma prova que consideram mais “nelle loro corde”. Para quem observa com olhos além do cronômetro, a prova em Bormio é uma oportunidade: medir a capacidade do esporte de se tornar patrimônio coletivo, capturar apoios e, se possível, trazer uma medalha que valide, diante da audiência global, um ecossistema esportivo que sempre viveu na corda entre tradição e modernidade.
Independentemente do resultado, a presença de Alba De Silvestro e Michele Boscacci nas pistas olímpicas funciona como ato simbólico: atletas que são ao mesmo tempo casal, vizinhança e tradição — figuras que ajudam a traduzir para o grande público o que significa competir na montanha. No sábado, quando o gate abrir para a staffetta, não estará apenas em disputa uma colocação; estará em jogo uma narrativa sobre o futuro do sci alpinismo como esporte e como patrimônio cultural das regiões alpinas.
Comentários finais de ambos resumem o momento: recuperar forças, confiar na prova que se aproxima e transformar a frustração em estratégia. Se a medalha vier, será consequência da soma técnica e simbólica; se não vier, a presença deles já terá elevado a visibilidade de um esporte que, enfim, conquistou o palco olímpico.






















