Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A derrota de Jannik Sinner nos quartos de final do ATP 500 de Doha, diante do jovem tcheco Jakub Mensik (n.º 16), reacendeu debates recorrentes sobre a carreira do italiano: genialidade soberana quando vence; fragilidade quando perde. Perder para um adversário fora do top-3, top-4 ou top-5 virou, para alguns, notícia em si. Sinner caiu em três sets e, como de praxe em sua trajetória pública, a leitura imediata foi a mesma: crise ou ‘flop’.
O episódio em Doha soma-se à outra derrota já registrada em 2026 — para Novak Djokovic — e confirma que, embora os números absolutos não sejam alarmantes, a percepção pública é volátil. Nos últimos dois anos, Sinner vinha perdendo cerca de seis partidas por temporada (12 no total). Em 2026 já são duas: Djokovic e Mensik. Há ainda o episódio atípico de Xangai, onde uma desistência por cãibras diante de Tallon Griekspoor distorceu o padrão; sem esse episódio, sua eliminação precoce mais recente remontava a uma derrota na segunda rodada de Halle para Bublik.
Do ponto de vista da corrida ao topo da ATP, os números falam claro: Sinner tem atualmente aproximadamente 10.400 pontos e corre o risco de ver Carlos Alcaraz subir para cerca de 13.550 pontos caso o espanhol confirme o título em Doha. Na hipótese de Alcaraz campeão, Sinner teria que recuperar algo em torno de 3.150 pontos já a partir da semana seguinte — uma diferença que, no calendário moderno, se negocia em escolhas de torneios e consistência.
Mas reduzir a análise a flutuações de ranking seria perder a leitura mais profunda: o objetivo público e particular de Sinner para 2026 é ambicioso e estratégico. O italiano tem um alvo claro — completar o Career Grand Slam vencendo o único major que lhe falta, o Roland Garros. É essa a chamada “estratégia vermelha”, não apenas pelo caráter simbólico da superfície, mas pela lógica de temporada que se desenha à frente.
O calendário sorri ao italiano: entre Doha e Paris há cinco Masters 1000 — Indian Wells, Miami, Montecarlo, Barcelona e Madrid — antes dos tradicionais Internazionali d’Italia, em Roma. Em contraste com Alcaraz, que terá pontos a defender nos Estados Unidos (360 a ‘descartar’ de Indian Wells e 45 de Miami, segundo o desempenho de 2025), Sinner carrega a particularidade de ter zerado boa parte dos pontos intermediários após o afastamento de três meses em 2025 por suspensão por doping, retornando apenas em maio para os Internazionali. Isso significa que muitos pontos a serem conquistados a partir de Doha ficarão no seu cofre classificatório — uma vantagem potencial em termos de recuperação de ranking.
Doha rendeu 100 pontos a Sinner, e dali em diante começa uma janela de oportunidade: jogar os Masters 1000 que favoreçam sua adaptação à terra batida, calibrar a carga física depois da intermitência de 2025 e traçar um mapa de pontos a defender e a ganhar. Cabe também a decisão estratégica sobre quantos desses eventos os dois protagonistas disputarão — ambas as agendas influenciarão diretamente a disputa pelo número 1.
Em suma, a eliminação em Doha deve ser lida em duas chaves. Na superfície do noticiário: mais um revés que alimenta narrativas de crise. Em profundidade: um reajuste tático em direção ao calendário de terra batida, com o Roland Garros como meta existencial — ganhar em Paris não é apenas conquistar um título a mais, é completar uma narrativa esportiva que elevaria Sinner de campeão extraordinário a um dos poucos a reivindicar o Career Grand Slam. Até lá, a batalha por pontos e escolhas de calendário promete altos desdobramentos.





















