Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O que poderia parecer uma imagem doméstica fora de época — atletas com agulhas e novelos nos chalés de competição — transformou-se em um sinal dos tempos em Milano Cortina 2026. Um vídeo publicado pela IBU (International Biathlon Union) nas redes sociais rendeu risos e o trocadilho de ‘o clube mais exclusivo dos Jogos’, mas a circulação das imagens revela algo mais do que uma curiosidade: a emergência da knitting therapy como prática de alívio e gestão da tensão entre provas.
Nos corredores dos centros de treinamento, nas vilas olímpicas e nas timelines de redes sociais, surgem lenços, suéteres e gorros sendo confeccionados por atletas. Ferri, agulhas e novelos aparecem com frequência nas publicações de competidores como o biatleta canadense Adam Runnalls — que foi filmado finalizando um maglione enquanto pedalava durante um treino — o deslizador Embyr-Lee Susko, e os biatletas Maxime Germain e Jasper Fleming, além da belga Isabelle van Elsted. São postagens que ilustram não só um passatempo, mas uma rotina de autorregulação emocional.
A tradução prática é direta: a atividade manual reduz estímulos cognitivos concorrentes, promove concentração em movimentos repetitivos e cria um ritmo que ajuda a baixar a ansiedade pré-competitiva. Em termos de preparação mental, a knitting therapy opera em sintonia com técnicas de atenção plena e respiração controlada, servindo como um gesto concreto de cuidado pessoal entre provas. Para atletas que vivem sob calendário intenso e sob o escrutínio público, esse gesto tem caráter tanto utilitário quanto simbólico.
Do ponto de vista cultural, a popularização do tricô dentro do ambiente olímpico recupera uma tradição frequentemente associada ao espaço doméstico e às redes comunitárias. Em uma era de profissionalização e hiperexposição, ver esportistas se dedicar a um ofício têxtil é também uma imagem de reterritorialização — o corpo esportivo reivindicando modos de produzir tempo e afetos. O tricô, nesse sentido, funciona como um dispositivo de resistência simbólica ao cronograma industrial do alto rendimento.
Há ainda uma dimensão pública: o compartilhamento dessas imagens nas redes contribui a humanizar figuras que, muitas vezes, são percebidas apenas pela performance. A cena do atleta tricoteiro reduz distâncias entre público e competidor, e cria narrativas alternativas aos relatos estritamente técnicos ou de resultados.
Se, na superfície, a piada do ‘clube mais exclusivo’ rendeu entretenimento, a persistência da prática revela uma tendência real e significativa. A knitting therapy em Milano Cortina 2026 não é um mero hobby de intervalo; é uma resposta coletiva a pressões contemporâneas do esporte, uma pequena oficina de cuidado em plena arena global.
Publicado por Espresso Italia. Análise e contexto por Otávio Marchesini.






















