Por Chiara Lombardi — Em um movimento que soa como um espelho do nosso tempo, os U2 voltam a assumir um tom político com o novo mini-álbum Days of Ash, lançado na Quarta-feira de Cinzas. Nove anos após o último inédito, a banda de Dublin entrega uma peça curta — 23 minutos — composta por cinco canções e uma poesia, pensada como uma resposta artística ao que a própria banda descreve como “os dias que vivemos”.
Sem abandonar a elegância narrativa que os caracteriza, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. optam por uma dissolução do formato pop convencional: a coletânea nasce como um hino à liberdade, um refrão cívico que olha para as histórias humanas por trás das manchetes. Quatro das cinco faixas focalizam vidas interrompidas — uma mãe, um pai, um adolescente — e a história de um soldado que preferiria cantar, mas que aceita o sacrifício por seu país. É o reframe da realidade transformado em canção, quando a memória e a política se tornam palco.
Musicalmente, o lançamento traz colaborações significativas: o britânico Ed Sheeran aparece em uma das faixas, enquanto o ucraniano Taras Topolia participa de uma peça que dialoga diretamente com a guerra na Ucrânia — conflito que, conforme lembrado pela banda, entrará em seu quarto ano em poucos dias. Essa presença reforça a dimensão europeia e transnacional do discurso dos U2, que não tratam o engajamento apenas como posicionamento nacional, mas como eco cultural.
A Universal Music descreveu a iniciativa como uma publicação estemporânea e independente, sem impacto sobre futuros álbuns da banda — um lançamento que tem mais a ver com urgência do que com calendário comercial. A própria banda usou as redes sociais para explicar que Days of Ash é “uma resposta aos nossos dias, inspirada por tantas pessoas extraordinárias e corajosas que lutam na linha de frente pela liberdade”.
Paralelamente ao disco, os U2 divulgaram o videoclipe de American Obituary, montado com imagens contundentes do Capitólio e da Estátua da Liberdade, e versos que invocam esperança e resistência: “Os piores não podem matar o melhor de nós, mas podem tentar. A América se voltará contra o povo das mentiras. Eu te amo mais do que o ódio ama a guerra”. A peça audiovisual atua como um espelho cinemático — quase um documentário de sinais — que conecta ícones nacionais a anseios universais.
Além da música, a banda lançou um novo número de Propaganda, a fanzine oficial, em celebração ao quadragésimo aniversário de sua primeira edição (1986). No editorial, Bono, David Howell Evans (The Edge), Adam Clayton e Larry Mullen reforçam seu credo: “Acreditamos em um mundo onde fronteiras não sejam apagadas pela força. Onde cultura, língua e memória não sejam silenciadas pelo medo. Onde a dignidade do povo não seja negociável”.
Como observadora do zeitgeist, eu vejo Days of Ash menos como um retorno à forma e mais como um gesto de responsabilidade cultural. Em tempos de polarização e imagens que se repetem até a exaustão, os U2 oferecem uma cápsula sonora que convida a reflexão — um roteiro oculto sobre coragem e perda, um convite para que a música atue como testemunha e como farol.






















