Por Stella Ferrari — A economia dos Estados Unidos mostrou uma desaceleração mais acentuada do que o mercado antecipava no final de 2025, com o impacto direto do shutdown governamental e um ritmo de consumo mais moderado, enquanto a inflação registrou alta acima das projeções. Os dados do Departamento do Comércio revelam que o PIB real cresceu a uma taxa anualizada de 1,4% entre outubro e dezembro, a leitura mais baixa desde o primeiro trimestre de 2025 e bem distante das estimativas em torno de 3%.
Os componentes que sustentaram o crescimento foram, sobretudo, o aumento da despesa dos consumidores e dos investimentos privados, parcialmente compensados pela redução dos gastos públicos e pela queda das exportações. As importações também registraram retração no trimestre, recalibrando a contribuição líquida do setor externo para a atividade.
No conjunto do ano, a economia americana avançou 2,2% em 2025, abaixo dos 2,8% de 2024. A leitura sinaliza que, embora o motor da economia continue a girar — sustentado pelo consumo das famílias — a aceleração perdeu força em função de choques pontuais e de comportamentos prudenciais dos agentes.
O episódio do shutdown, que se estendeu de outubro a meados de novembro, tem sido apontado por membros da administração como a principal causa da frustração nas previsões. O presidente Donald Trump atribuiu ao impasse legislativo uma perda equivalente a cerca de dois pontos percentuais do PIB, via publicações em suas redes. Estimativas apartidárias do Congressional Budget Office (CBO) sugerem um impacto de aproximadamente 1,5 ponto percentual sobre o crescimento do quarto trimestre, decorrente da redução temporária de serviços federais, menor compra de bens e serviços e corte nos benefícios do programa de assistência alimentar.
Analistas colocam em perspectiva que os efeitos do maior shutdown da história recente tendem a ser temporários, mas alertam para a necessidade de uma gestão macroeconômica cuidadosa: a recuperação parcial observada nos investimentos mitigou o choque, mas não o compensou integralmente.
No front da inflação, o índice PCE core — a métrica preferida pelo Federal Reserve para medir a evolução de preços — apresentou alta de 0,4% em dezembro, acima das expectativas do mercado, reacendendo discussões sobre a trajetória da calibragem de juros pelo banco central americano. A combinação de inflação persistente e um mercado de trabalho mais frouxo cria um dilema clássico de política: desacelerar sem frear demais a atividade.
O comportamento das famílias merece atenção: embora o consumo tenha permanecido o principal pilar do crescimento recente, há sinais de realocação das despesas. Famílias de renda média e baixa estão mais sensíveis aos preços e vêm optando por compras em atacarejo e por estratégias de contenção, o que pode limitar a elasticidade da demanda diante de choques de oferta ou de custo de crédito.
Do ponto de vista estratégico, interpreto os números como um convite à prudência e ao redesenho das políticas fiscais e monetárias em busca de estabilidade. Em termos automotivos, o sistema econômico perdeu um pouco da marcha alta por um incidente no motor institucional — o shutdown — enquanto a pressão inflacionária lembra a necessidade de ajustes finos nos freios e na injeção de combustível da política monetária.
Em resumo: o crescimento desacelerou, a inflação surpreendeu para cima e o desafio agora é sincronizar medidas que preservem a atividade sem abrir mão do controle de preços. A próxima janela de dados e a comunicação do Federal Reserve vão ditar se a recuperação retoma velocidade controlada ou se entram novos elementos de incerteza no horizonte.
Stella Ferrari é economista sênior e estrategista de mercados da Espresso Italia, com foco em macroeconomia aplicada a decisões corporativas de alta performance.






















