Marco Severini — Em um movimento que revela as fragilidades e os cuidados do tabuleiro diplomático europeu, o presidente francês Emmanuel Macron pediu publicamente à primeira‑ministra italiana Giorgia Meloni que cesse de “comentar o que acontece além‑fronteiras”. A intervenção ocorreu em Nova Délhi, durante visita oficial da delegação francesa à Índia, e foi formulada com ironia calculada: “deixem todos ficar em casa e as ovelhas estarão bem guardadas”.
A resposta de Macron acontece no contexto da morte do jovem ativista nacionalista Quentin Deranque, espancado até a morte por pelo menos seis pessoas nos arredores de um evento em Sciences Po Lyon. Entre os agressores estariam militantes do movimento La Jeune Garde, com ligações apontadas à La France Insoumise de Jean‑Luc Mélenchon, segundo relatos iniciais.
Em Roma, a chefe do governo havia declarado na plataforma X que “a morte de um jovem de pouco mais de 20 anos, atacado por grupos ligados ao extremismo de esquerda num clima de ódio ideológico difundido em diversos países, é uma ferida para toda a Europa”. A frase sinalizou um posicionamento público que imediatamente ultrapassou os limites da simples condenação criminal e entrou na esfera política e simbólica.
Fontes de Palazzo Chigi registraram surpresa pelas palavras de Macron. Segundo o comunicado oficial, a manifestação de Meloni foi uma expressão de “profundo pesar e consternação” pela dramática morte de Quentin Deranque e uma condenação do clima de ódio ideológico que atravessa nações europeias. “Declarações que representam um sinal de proximidade ao povo francês e que não interferem nos assuntos internos da França”, acrescentaram as fontes.
Em entrevista à Sky Tg24, a primeira‑ministra italiana reforçou seu diagnóstico: “Vejo um clima que não me agrada. Vejo na Itália, vejo na França, vejo nos Estados Unidos.” Meloni afirmou ainda ter comentado outros episódios que julga sintomáticos desse ambiente — numa referência controversa que incluiu o que chamou de “assassinato de Charlie Kirk” — e sublinhou a necessidade de que as classes dirigentes reflitam sobre como combater uma atmosfera que pode nos devolver décadas de retrocesso. Em tom de arqueologia política, lembrou que a Itália viveu momentos semelhantes e que a França conhece bem episódios do passado, inclusive pela concessão, em décadas passadas, de asilo político a figuras vinculadas às Brigadas Vermelhas.
Como analista, é imprescindível interpretar esse atrito não apenas como um ruído retórico, mas como um movimento de peças no tabuleiro mais amplo da tensão França‑Itália. A ironia de Macron e a resposta de Roma expõem alicerces frágeis da diplomacia europeia e a sensibilidade dos governos diante de atos de violência que rapidamente se transmutam em narrativas de ordem pública, identidade e responsabilização política.
Na cartografia das relações bilaterais, cada declaração pública funciona como uma torre avançada: protege posições, mas também expõe flancos. Para restaurar estabilidade entre Paris e Roma será preciso, como em uma boa arquitetura clássica, restaurar os pilares do diálogo institucional, evitar a politização imediata de trágicos crimes e, sobretudo, restabelecer canais discretos de entendimento que remendam as fronteiras invisíveis da confiança mútua.
Palavras‑chave: Macron, Meloni, Quentin Deranque, La Jeune Garde, La France Insoumise, Sciences Po Lyon, óDio ideológico, França‑Itália.






















